Os negros não são confiáveis


Os negros não são confiáveis, são imorais e não têm ética. Aliás, se todos fossem brancos não haveria criminalidade no Brasil.

Não só isso: assim como os negros, os judeus, nordestinos e todos os mestiços são criminosos por natureza. A disseminação da cultura da pureza racial e dos valores arianos entre as crianças as tornariam, com certeza, cidadãos melhores no futuro, e reduziriam os problemas sociais nas próximas décadas.

Bem, leitor, imagino que neste ponto você esteja escandalizado pelas afirmações acima. Deve estar imaginando que eu enlouqueci, e que estou pedindo para ser preso. Eu entendo perfeitamente. Mas, antes de me denunciar à polícia, por favor continue lendo; em breve você entenderá o porquê de eu ter começado este texto de forma tão polêmica.

Recentemente - no dia 04 de abril, para ser mais exato, como reportou o Fabrício Fleck - o jornalista José Luiz Datena, comentando (à exaustão e milhas além das fronteiras do bom senso) o famoso caso de uma menina arremessada pela janela (presumidamente) pelos pais, soltou, indignado, que “as pessoas não lêem mais a Bíblia, as pessoas não fazem mais orações a Deus, as pessoas não vão mais à missa, as pessoas não vão mais ao cultos evangélicos, as pessoas não rezam mais pra Buda, as pessoas não vão mais às mesquitas, as pessoas não procuram por Deus…É POR ISSO QUE ESSE CRIMES BÁRBAROS ACONTECEM!!!“

Ou seja, crer em divindades e/ou participar de rituais místicos leva à correção; não crer, leva fatalmente à criminalidade. A causa da criminalidade é, como professou o eminente jornalista, da descrença.

O que equivale dizer, passando para o discurso ativo e tornando a linguagem mais clara: os agnósticos e ateus são inerentemente criminosos.

Mas o Datena, como dizem, é o Datena. Todos conhecem o estilo do apresentador, que trabalha no improviso e no calor da emoção - para não tocar no inesgotável assunto do brilhantismo intelectual do sujeito. Em tais circunstâncias, podemos até desculpar um deslize destes.

Porém, este pensamento não está restrito aos estúdios de programas de histeria policial de terceira linha. No Paraná, o Deputado Estadual Mauro Moraes propôs a lei Minha Primeira Bíblia, que (ipsis literis) “consistirá na entrega por parte do Estado de uma Bíblia a todos alunos que houverem concluído a classe de alfabetização” com despesas que “correrão por conta das dotações orçamentárias da Secretaria Estadual de Educação.

Não vamos nos prender a obviedades, como por exemplo o trivial fato de que isto é escandalosa e gritantemente inconstitucional. O que nos interessa aqui é a justificativa do projeto:

JUSTIFICATIVA: O que visa esta proposição é, através da fé, amenizar os problemas sociais que vem sendo enfrentado por todos nós. Independentemente de credo, só o fato de se possuir uma religião, contribui para afastar, principalmente os jovens, dos males que os rondam.

Ou seja: “possuir religião”=”bem-estar social”; sendo assim, “não possuir religião”=”apocalipse social”. Trocando em miúdos, agnósticos e ateus emporcalham a sociedade.

No Rio de Janeiro, o Deputado Estadual Fábio Silva propôs o projeto de lei 1.538/04, com a mesma finalidade (e mesmo conteúdo inconstitucional e proselitista). Vencida a proposta no estado, na Capital o Vereador Théo Silva também tentou a mesmíssima coisa com o PL 680/2005. A justificativa chega a dizer:

Portanto, em uma cidade com estatísticas de violência como o Rio de Janeiro, é de vital importância, que os nossos jovens tenham acesso à doutrina religiosa.” Fala em “estudos recentes” que provariam que religião é antídoto contra a criminalidade, sem citar fontes, nomes e nem especificar de forma alguma que estudos tão revolucionários são estes.

A lista segue: o Deputado Joacy Paschoal no Rio Grande do Norte, o Vereador Vilmar Rotilli em Entre-Ijuís, no Rio Grande do Sul, entre muitos outros, já tentaram (e continuam tentando) obrigar ex legis a arregimentação cristã dos alunos do ensino público com a justificativa de que, ao se tornarem legítimos dizimistas, serão imunes à criminalidade, a qual seria praticada apenas por quem não possui religião alguma.

Ou seja, os ateus e agnósticos são criminosos por natureza. A disseminação de crenças religiosas entre as crianças as tornaria, com certeza, cidadãos melhores no futuro, e reduziriam os problemas sociais nas próximas décadas.

Mas… ei, esperem um pouco, não foi exatamente isto que eu disse dos negros, judeus, nordestinos e metiços no começo do texto?

Chegamos ao ponto que eu queria. Formalmente, não há diferença entre uma afirmação e outra. Por que, então, é crime falar certas coisas de negros (discriminação de cor), judeus (discriminação religiosa), mestiços (discriminação étnica) ou outras classes de indivíduos, mas é aparentemente permitido falar as mesmas coisas, da mesma forma, dos agnósticos e ateus? Tanto é permitido que mesmo atos estatais, oficiais - como leis - praticamente criminalizam a descrença, ao ponto de entre a falta de crença em seres mitológicos e o aumento da criminalidade forjar uma relação de causa-efeito?

Vejamos o que diz a própria lei. Todos sabem que racismo (como o das afirmações que abrem este texto) dá cadeia, mas poucos se lembram que não somente ele é punível com todos os rigores reservados pelo Estado para aqueles que andam fora da linha. A Lei 9459/97 ampliou significativamente o alcance do crime de discriminação, de tal modo que não somente o preconceito de raça ou de cor é ato criminoso, mas também o preconceito ou discriminação de etnia, religião ou procedência nacional. E, a respeito de discriminação em função de religião, tanto faz discriminar quem possui uma crença religiosa diferente da sua quanto - e isto ninguém parece perceber - quem não possui crença religiosa alguma.

No entanto, é comum ouvir declarações como as do Datena. Somos assolados por afirmações do tipo “católico, evangélico ou espírita, tanto faz, o importante é ter uma religião”, vindas de pessoas aparentemente preocupadas em, de acordo com os protocolos politicamente corretos, abraçar “todos de todas as crenças”. Mas,óbvio, não abraçar de forma alguma aqueles hereges horríveis que não crêem em deus de mitologia alguma.

Fazem isso de forma até inconsciente. Os ateus e agnósticos são uma parcela estatísticamente desprezível da população, da audiência e do eleitorado. Não possuem, no Brasil, voz ativa (mesmo porque se assumir ateu significa ser impedido pelo povo de obter acesso aos cargos legislativos e, em função da rejeição popular, é garantido aos ateus a falta de espaço na mídia). Portanto, passam a sensação de não existirem de forma alguma, o que está muito longe da verdade. Quando chegam à mídia, são apresentados de forma caricata: resmungões cínicos que estão ali apenas para alívio cômico, como o “vilão atrapalhado” do episódio.

Até quando ficaremos inertes em face desta situação? Permitindo que discursos do tipo “devemos orientar nossas crianças para que encontrem cada uma sua espiritualidade, que é o importante” sejam apresentados como tolerantes e corretos? Se já fomos um Estado de proselitismo oficial católico, e se alguns entes da Federação passam por fases de proselitistas oficiais evangélicos, temos que, como um tipo de denominador comum, concordamos em viver agora em um estado de proselitismo espiritual (que, não se enganem, em nosso país significa cristão). O que, a bem da verdade, é proselitismo do mesmo jeito: intolerante, excludente, cerceante, controlador, embalado em uma capa de boas intenções.


Douglas Oliveira Donin é advogado, cético, liberal, democrata, capitalista, utilitarista e sul-riograndense de Porto Alegre.
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Comentários dos Leitores

É incrível !!!

Como não pensaram nisso antes ???

É OBVIO que os sujeitos malvados não acreditam em Deus !!!

Assim como os Pedófilos Catolicos, o louvam diariamente, e os padres alemães que se valiam de escravos durante o regime nazista tambem louvavam a Deus.

E os genocidios praticados em nome da religião tambem são uma prova clara de que quem não acredita em Deus é só gente sem amor no coração e ao proximo !

E como ja era de se esperar toda vez que surge um assunto de uma estupidez sem tamanho nossos legisladores não desistem de nos surpreender com mais um sem numero de babaquices.

Deviam mesmo era aprovar o Pastarianismo e seriamos uma sociedade feliz com o Monstro do Espaguete voador !

Parabéns pelo seu texto lúcido. Realmente é difícil ver em nossa sociedade alguma imparcialidade, principalmente religiosa. Eu, como ateu sou freqüentemente discriminado. O pior ainda é não ter para quem reclamar, já que nossos poderes são em grande parte formados por pessoas proselitistas.

A lei no Brasil é sempre seletiva, nunca universal. Vá lá que o ateu resolva processar o datena, se cair num juiz evangélico, o ateu se ferra e ainda leva sermão. Até uma instância superior dar conta, coloca tempo nisso.

O Brasil inaugura um novo processo medieval (no sentido negativo da palavra), com crendices absurdas e teorias mais idiotas ainda. Mas na idade média as pessoas tinha uma desculpa: hoje, uma edição de jornal tem mais informação do que uma pessoa da época poderia ter durante a vida.

Vai ver a burrice é mesmo uma opção, como jogar crianças pela janela. A desculpa de hoje é o social, o religioso, o carnaval, o imperialismo ou qualquer besteira. Goddamnit!!!! Hehehe

O mais surpreendente é que essas leis ainda não foram aprovadas, mas garanto, se deus quiser, que elas serão aprovadas :P

Vamos então criar nossa própria seita:
- Igreja Ateísta da Sorte e da Probabilidade.

hehehe…

Ótimo texto.

Parabéns pelo texto é assim que me sinto sempre, segregada, é assim que as minhas filhas gêmeas de 8 anos se sentem na escola(seja ela qual for), com amiguinhas evangélicas que fazem rodinha e dizem:
_Tia vamos obriga-las a acreditar em Deus?
Sinto alivio apenas quando as amiguinhas perguntam:
_Quem fez vc então?
e elas respondem:
_ Meu pai e minha mãe!

Também me canso de ouvir que graças a Deus aquelas pessoas do Tsunami sobreviveram, mas e as que morreram? Deus não a viu? ah é mesmo ele sabe o que faz!

Ótimo texto, como sempre, Douglas. A falta de “desconfiomêtro” de crentes em geral, ao não perceber que a discriminação vale tanto contra quem tem fé quanto contra quem não tem deve ser derivada da mesma “cegueira” que sustenta essa fé.

E não percebem que é justamente a laicidade do estado que os proteje da fúria das outras religiões. Se o estado deixa de ser laico, todas as religiões, menos a dominante, passam a ser perseguidas e atacadas (pense no pastor que chutou a Santa, o que faria se fosse responsável por decidir medidas sobre a Igreja Católica ou sobre direitos do camdomblé).

E acho mesmo que é essa perseguição fundamentalista contra quem não segue amigos imaginários que resulta em índices baixos de ateus e agnósticos em estatísticas. Uma boa parte deve evitar declarar sua descrença para evitar perseguições ou problemas com os malucos da fé.

Um abraço.

Homero

Ateu merece morrer de fome.

Não sou ateu, acredito em Deus, mas sou contra a discriminação contra qualquer parte, inclusive os ateus, pois todos possuem( de acordo com as leis ) direito de liberdade.
Li um artigo comentando que na Austrália foi proibido manifestações ateístas somente pelo fato de que o Papa irá visitar aquele país, e se a regra vale para todos, não concordo com esse veto, pois tem q haver respeito de ambas as partes.

E percebo que muitos ateus são famosos, sinal de que conseguiram algum reconhecimento do público.

Caramba, porque não conheço ninguem pessoalmente que pense dessa forma e faça parte do meu circulo de amizades… nao consigo levar um minuto de conversa com ninguém… sou ateu, vegetariano e ÉTICO, por isso tão criticado… mas acho tão óbvio ser assim…

Infelizmente é o que acontece conosco, ateus. Não me sinto perseguido, mas acuado por um tsunami de crentes enmlouquecidos na tentativa de converter a todos.
No mais, ótimo texto, como sempre.

O exemplo do Lefebvre ilustra muito bem esse processo de discriminação crescente no Brasil:

“Vá lá que o ateu resolva processar o datena, se cair num juiz evangélico, o ateu se ferra e ainda leva sermão. Até uma instância superior dar conta, coloca tempo nisso.”

Isso é realmente o que vai acontecer. Ninguém citou aqui que a religião É SIM, uma das maiores ferramentas de alienação.
Por isso políticos pregam e se apegam tanto a elas.

Infelizmente, o preço da educação católica que tivémos nesse país nos assola até hoje e não deve se extinguir tão cedo.

OBS. Sei que pode parecer preconceito agora com a religião, mas infelizmente, só consigo enxergar a religião como instrumento de dominação mesmo.

E quanto a essa perseguição frenética aos ateus, só consigo enxergar como uma inquisição moderna.

Vocês acham esses projetos de lei absurdos? E o que dizer de uma resolução (Res. 89/2005) emitida por uma vereadora aqui em Campinas, que muda o regimento interno para que, no início de cada sessão, sejam lidos trechos da bíblia? O que vocês dizem disso? :)

Mas vendo esses projetos de lei emitidos por nossos maravilhosos representantes, eu penso o seguinte: E isso tudo acontece porque o Brasil é um Estado laico, imaginem se o país fosse um Estado teocrático-fundamentalista? ;)

Só um comentariozinho?
como exemplo pego o casamento gay, que pro um certo tempo foi até aceito pelos catolicos…
Se religiões fossem realmente serias e dependentes de Deus, não precisaria do PAPA (humano de carne e osso) pra dizer qeu não pode fazer porque é pecado né?

Mas se for entrar na ideia de existir e/ou acreditr e/ou não acreditar em deus…
É como diria Jack Palance:
Acredite… SE QUISER.

eu acredito que seu text está em termos corretissimo…

acredito que apenas vc errou ao compararas discriminações porque vc ofende as pessoas que são negras ou judus ou nordestinos etc…

a sua comparação foi subjetivamente bem olocada

afinal no brasil a justiça não permite certas desciminaçõe e permite outras…

o brasil eh aqule velhop e famoso país corrupto e sem corruptores em que se pressupõe que a lei é cumprida a rigor…

unam-se e lutem para que a leio seja acessivel a todos pois talvez só a união dos envolvidos possa mudar.

é preciso que lutemos por melhorias de justiça e não fiquemos apenas criticando

vc está appoiado por mim,mas com ressalvas.

cla clap clap

Gostei muito do texto. Também fui muito assediada por gente querendo me converter para alguma coisa. É bom lembrar, contudo, que também existe fanatismo laico, como na França, onde proibiram as meninas muçulmanas de usar o véu nas escolas. O argumento é que o Estado é laico e as escolas são públicas e portanto deveriam estar isentas de qualquer menção religiosa. Mas o vestuário das alunas é pessoal, é totalmente diferente de ter uma cruz pendurada na parede, por exemplo. Vi o pessoal sendo meio radical contra religião e lembrei disso.

[...] o Datena conscientiza os seus espectadores de que a culpa da criminalidade é da descrença, duas notícias para alegra o dia. Primeiro, uma constatação da USP de que, sim, este tal de [...]



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