A História de Voytek, o maior soldado polonês de todos os tempos
A Segunda Guerra Mundial foi um período de extremos. De um lado, temos a mancha de destruição, violência e morte causada pelo conflito. De outro, temos um período de vertiginoso progresso científico, heroísmo e fascinantes histórias que não seriam concebíveis em nenhuma outra época.
Uma destas é a história da vida de Voytek, um soldado polonês - talvez o maior de todos os soldados poloneses, e um dos mais bravos combatentes de toda a guerra. Voytek tem uma longa lista de serviços pela sua nação, tendo lutado nas piores batalhas da Campanha da Itália. Era um grande amigo de todos os seus companheiros da 22° Companhia de Transporte de Suprimentos de Artilharia: sempre alegre, adorava um bom cigarro e uma bela garrafa de cerveja, como qualquer soldado, e era o melhor lutador de Luta Livre de todo o Segundo Corpo do Exército Polonês.
Ah, detalhe, e ele também era um urso marrom de trezentos quilos e dois metros e meio de altura.
Quando em 1941 Hitler quebrou o pacto de não-agressão com Stalin e invadiu a União Soviética na Operação Barbarossa, mexendo com o vespeiro que seria, no final, sua ruína, milhares de soldados poloneses prisioneiros de guerra foram libertados pelos comunistas para lutar contra a Alemanha. Alguns deles foram incorporados ao Exército Vermelho, mas uma grande parte preferiu se juntar ao Exército Inglês, em campanha no Norte da África. Dentre estes, estava a futura 22° Companhia de Transporte de Suprimentos de Artilharia.
Em passagem por uma estrada empoeirada do Irã, a caminho da Palestina (onde estava estacionado o 8° Exército inglês), os poloneses da 22° CIA encontraram um garoto faminto carregando um saco. Ofereceram alguma comida ao menino, e, curiosos, perguntaram o que ele estava carregando. Quando o garoto abriu o saco, os soldados viram um pequeno e desnutrido filhote de urso marrom. Comovidos, compraram o ursinho do menino, e, mesmo sem ter idéia do que fazer com ele, seguiram viagem.
Nos dias que se passaram, os homens da 22° CIA alimentaram o ursinho com uma mamadeira improvisada, deram ao pequeno lugar quente para dormir nas suas camas e cuidaram para que o bichinho esquelético e cansado se transformasse em uma gorda e esperta bola de pêlos. Deram ao urso o nome de Voytek, que rapidamente se tornou o mascote da companhia. Todos os integrantes da 22° tratavam o ursinho como um verdadeiro filho.
Os ingleses recepcionaram o II Corpo polonês incrédulos: transitando livremente em meio aos soldados, eles tinham nada menos que um urso marrom. Ao redor das fogueiras, os soldados dividiam com Voytek comida e bebida, bricavam de luta-livre - sua brincadeira favorita - e, quando chegava a noite, o urso podia ser encontrado estirado nas camas dos alojamentos, roncando lado a lado com o restante do pessoal.
Mas o tempo passa para todas as coisas, inclusive para os ursos. Em pouco tempo, Voytek - que era alimentado praticamente a mel e pão-de-ló pela 22° CIA - se transformou em um colossal urso de quase dois metros e meio de altura e mais de trezentos quilos. Mas nem por isso perdeu a ternura: continuava o mesmo companheiro de sempre, e ninguém na unidade tinha receio de Voytek. Muito pelo contrário. Poucas coisas mudaram - a principal delas, obviamente, era o título de Campeão de Luta Livre da unidade. Claro que tudo isso causava perplexidade nos britânicos, principalmente nos recém-chegados.
Lá pelas tantas, Voytek, acostumado a tomar banho junto com seus companheiros, aprendeu a abrir sozinho o registro de água do banheiro. E, daí para frente, um dos locais preferidos do urso era o banheiro, onde ele frequentemente era visto se esbaldando com água quente nos chuveiros.
Em uma noite, Voytek foi tomar o seu tradicional banho noturno e surpreendeu um espião escondido no banheiro. O leal urso não teve dúvidas: deu uma surra no coitado e o entregou para os oficiais, que chegaram rapidamente após ouvir a barulheira (para alívio do espião). Interrogado, ele revelou informação vital sobre a localização das tropas inimigas na região, e Voytek, que já era famoso, começava a se tornar uma lenda entre os ingleses.
Voytek cresceu em meio aos soldados. Seguia as marchas da unidade junto aos seus companheiros, andando sobre as patas traseiras. Participava dos deslocamentos sentado no banco do carona dos jipes, com o cabeção para fora do carro babando ao vento, para assombro de quem passava pela unidade no caminho. E, como a 22° CIA era uma unidade de logística, Voytek participava do trabalho pesado carregando alegremente caixas de munição para seus companheiros, fazendo facilmente o trabalho de vários homens. E, nas horas de folga, Voytek bebia cerveja, fumava cigarros, comia guloseimas e ficava de palhaçada com seus amigos, como qualquer outro soldado.
Mas na Europa a guerra ficava cada dia pior, e, com a derrota das forças do Eixo no norte da África, os serviços da 22° CIA passaram a ser necessários na Itália. Assim, a 22° se juntou ao 8° Exército inglês para a Operação Baytown, o primeiro passo para a invasão da península. O problema era que o rigoroso Alto Comando Inglês não permitia animais de estimação nos acampamentos do front.
Mas Voytek era mais do que um urso. A moral da 22° era formidável graças a ele. Voytek ajudou a recuperar a auto-estima de homens que passaram anos em campos de trabalho forçado, e os transformou de pessoas humilhadas e desmoralizadas em soldados orgulhosos, bravos e alegres. O comando polonês não podia simplesmente abandonar Voytek, e a solução dos oficiais para burlar o regulamento inglês foi notável: levaram Voytek para o fotógrafo e o alistaram oficialmente no exército. O urso agora era um verdadeiro soldado, com registro, identidade, posto e número. Só estava dispensado extraordinariamente do uso do uniforme.
Com esta solução criativa, Voytek não era mais um animal de estimação, era um membro do Exército Polonês. E, como tal, seguiu com o 8° Exército inglês para o sul da Itália lutar a dura campanha que segiu a invasão. Participou de batalhas dificílimas, como a tomada de Monte Cassino, tida como impossível. Sob o comando do Gal. Wladslaw Anders, o 8° Exército conseguiu derrotar os alemães nesta que entrou para a história como uma das mais duras batalhas da Segunda Guerra, graças ao apoio impecável de artilharia proporcionado por Voytek e seus colegas, que ajudou a arrancar os alemães de suas posições.
Pelos dois anos da campanha italiana, Voytek foi um dos mais valorosos e bravos combatentes aliados, prestando serviços inestimáveis em diversos locais sem perder a alegria e sem deixar seus companheiros se abaterem pelas duras condições do combate. E, claro, sem deixar os canhões britânicos sem munição.
Voytek já era uma lenda no final da guerra, e era hora de encerrar seus serviços e voltar para casa. Mas, devido a razões políticas, a Polônia foi deixada pelos ingleses nas mãos dos soviéticos, e muitos soldados, com lembranças do tempo de prisioneiros de guerra, preferiram seguir para as Ilhas Britânicas. Com eles foi Voytek, que ganhou uma aposentadoria tranquila no Zoológico de Edinburgo. Durante vinte anos, o soldado viveu uma vida confortável e pacífica, recebendo ocasionalmente a visita de seus antigos colegas de companhia, que, para desespero dos veterinários, levavam cigarros e cerveja para o velho amigo.
A história de Voytek, o urso, soldado e herói de guerra, terminou com a morte tranquila do veterano na Escócia, em 1963. Mas Voytek continua a ser um símbolo de companheirismo e coragem para os militares poloneses. Há estatuas e monumentos glorificando Voytek e seus feitos na Polônia, em Edinburgo, no Museu Imperial de Guerra de Londres e no Museu de Guerra Canadense. E, ainda hoje, a artilharia polonesa carrega no uniforme a imagem de seu mais valoroso herói.







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