As Misses Esquerdinhas


O Jornal Zero Hora deste domingo trouxe, em sua página 6, uma boa reportagem sobre as candidatas da esquerda à prefeitura de Porto Alegre, Maria do Rosário (PT), Manuela D’Ávila (PC do B) e Luciana Genro (PSOL). Não sei se foi proposital - aliás, o melhor humor geralmente não o é - mas há um quê de insólito na reportagem, principalmente no contexto político, aham, bizantino que ela retrata. Seria engraçado, afinal, se não fosse um pouquinho triste.

Aliás, eu procuro não me meter muito neste ambiente e não citar nomes (pelo menos depois que, na melhor moda de Pequim, o meu amigo Lefebvre foi ameaçado de estupro jurídico pela mais jovem destas aí), me limitando a criticar toda a esquerda que fique do lado de lá do PDT muito mais pelas suas idéias um tanto quanto rasinhas e perigosas (teratoestatofilia, apologia dos mais variados sabores de totalitarismo, analfabetismo econômico completo, negação das leis da matemática, fixação mórbida com todas as formas de relativismo moral* e burguesiofobia conspiracionista) do que pela fauna peculiar da sua militância. Mas, como a referida reportagem me lembrou, tem umas horas que não dá para manter a elegância.

[* - Menos em relação aos EUA, que são absolutamente maus]

Pois bem. O jornal traça um perfil até bem generoso das candidatas. Chega a classificá-las como “jovens e bonitas”. Olha, pode até ser. A Luciana Genro não é exatamente “bonita”, nem a Maria do Rosário é exatamente “jovem”, mas não são nenhuma Roussef, também. O fato é que, no meio de tanta paparicação dos dotes estéticos das moças, da descrição dos cuidados com os cabelos, dos perfumes de grifes caras que usam (ah, como é bom ser capitalista!), dos namorados novos e dos seus amores de longa data, fica claro que, no que diz respeito à cultura política, as três beldades castristas são retratadas como meio… ocas. Seria até o caso de acusar a Zero Hora de, em um rompante de machismo mal-disfarçado, reduzir as candidatas à condição de pteridófitas. Seria, se elas mesmas não fizessem por merecer.

Não sei se vocês já notaram, mas eu percebi que, quando um ateu ou cético vai discutir com um cristão fanático, quase certamente este sabe muito menos da bíblia que aqueles. Depois de citar trechos do manual cristão, é comum ouvir um “peraí, mas isto está na bíblia?” vindo justo daqueles que deveriam (já que pregam) saber o que está escrito lá. Aí o debatedor é obrigado a revelar que, sim, conhece aquelas partes sujas e obscuras da doutrina que os doutrinadores mesmos desconhecem.

Bem, muda a religião, mas a situação é a mesma quando tratamos com praticantes devotos do marxismo. Noto que é muito mais fácil discutir marxismo com economistas e liberais em geral do que com marxistas praticantes, justamente pelo fato que estes costumam não ler Marx. Aliás, poucos sabem diferenciar Marx de Trotsky ou Lênin, a enorme maioria não sabe que o autor não era russo e quase a totalidade não é capaz de identificar corretamente as idéias e os feitos de um ou de outro (ou minimamente conceituar “mais-valia”. Façam a experiência: peçam a um universitário marxista o conceito de mais-valia. E divirta-se com as respostas).

Como aqueles estudantes preguiçosos que, para não perder tempo com as leituras obrigatórias dos vestibulares, recorrem aos resuminhos de meia página dos cursinhos, geralmente estes defensores ferrenhos de all things Marx se contentam com as cartilhas dos partidos (que são bastante coloridas, aliás, bem mais que os livros) e se sentem grandes filósofos políticos pelo fato de conseguirem, depois de um pouquinho de adestramento, transformar a complexidade da sociedade em uma caricatura maniqueísta do mundo com o auxílio de dois ou três pensamentos da época da Revolução Industrial e de um vocabulário repetitivo de cinco ou seis expressões, entre as quais os obrigatórios “imperialismo”, “colonizado”, “neoliberalismo” e outros, que, para começo de conversa, nem têm muita coisa assim a ver com o pensamento do economista alemão.

Na página 8 do jornal, dá para sentir que esta inércia intelectual (que eu não classificaria como preguiça, mas sim, como cautela, já que ler expõe a pessoa ao desagradável risco de descobrir que está errada) não é prerrogativa das criaturas do subsolo partidário, como os membros de diretórios acadêmicos de ciências humanas (que não só desconhecem completamente os escritos fundamentais do pensamento de esquerda, mas também todos os tipos de aparelhos para barbear e, aparentemente, os próprios professores), os animais de tração de sindicato, sempre muito diligentes e dedicados em arremessar a máquina sindical, com trabalhadores e tudo, contra o governo de direita mais próximo, e os bonecos-de-posto de campanha, que se regojizam no fato de que comparecer a um comício é mais barato do que pagar ingresso de jogo de futebol e dá para agitar bandeira do mesmo jeito. Estes são seres notadamente acostumados a um ambiente de idéias mais rarefeitas. Estas moças das quais trata o jornal nos ensinam (caso a lição do timoneiro-mor da gloriosa nação do cruzeiro-do-sul não tenha já deixado isto bem claro) que a refinada arte de ler apenas livros com figuras também é bastante apreciada e zelosamente cultivada e nos altos castelos do mundo mágico da foice e do martelo.

Como diz uma chamada da página, logo acima da foto do bom velhinho: “Luciana e Rosário não se aventuraram pelas mais de 2,5 mil páginas de ‘O Capital’ de Marx. Manuela tentou, mas confessa que não entendeu.” O texto explica que a musa bolchevique, embora não tenha entendido nada (e eis a necessidade de uma versão em quadrinhos de O Capital - com o autor interpretado pelo Cebolinha), pelo menos se dispôs a ler a fundamental obra de Marx, coisa que todo liberal que se preze, a bem da honestidade intelectual, já deve ter feito e refeito (bem como, pelo menos, Keynes). E antes de criticá-la, é bom que se diga que esta demonstração de boa-vontade é muito mais do que fizeram suas concorrentes, que sequer colocaram os olhos na obra que, corajosamente, defendem integral e incondicionalmente. Mas afinal, como todo cristão bem sabe, o que importa é a fé. Conhecimento, mesmo, é pecado (e, olhando por este ponto de vista, talvez a tentativa de Manuela de tentar saber o que defende não passe de gnosticismo herege).
Ora, de qualquer modo, isso é mero detalhe. Não podemos confundir cultura política com política, e quem já entendeu o jogo sabe que, pelo menos entre aqueles que ainda não reconhecem que a URSS caiu, estas duas modalidades não só não se confundem como são obrigatoriamente excludentes. Fosse de outro modo, certas pessoas não teriam coragem de defender as besteiras que defendem.

Por isso, logo em seguida, a reportagem deixa de frivolidades e volta a discutir as reais prioridades da campanha. “Manuela é mais preocupada com a balança - foi obesa na adolescência. Luciana diz pesar 64 kg e não falta à academia. Com 58 kg, Rosário é fã de cosméticos”, revela o jornal. Viram, seus comentaristas políticos idiotas? Eu disse que a Luciana não tinha mais que 65 kg.

E, também, devemos dar um desconto. Ler livro para quê? Hoje em dia, basta esperar pelo filme.


Douglas Oliveira Donin é advogado, cético, liberal, democrata e sul-riograndense de Porto Alegre.
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Comentários dos Leitores

Pelo visto esse é o pontapé inicial dos posts de ano eleitoral. Aqui teremos um prato cheio com Gabeira X Crivella (a réplica “estou mais preocupado com a relação ‘mosquito com homem’” já foi um gol de placa). Mas tenho uma monografia pra fazer neste primeiro semestre, então nada de política municipal no EQF até julho, provavelmente.

Texto maravilhoso, parece o Kid falando de política, se ele falasse disso.

Como assim não existe O Capital em quadrinhos? Não só como tal obra existe como eu a possuo! Só que foi feito há tanto tempo que na época quadrinhos se chamavam banda desenhada… Pena que não deu muito certo e não tenha o Manifesto Comunista, esse sim ia fazer sucesso!