Considerações sobre o deus cristão (II) - a Onisciência.


No texto anterior, falamos sobre como a onipotência é impossível. Neste post, falaremos sobre o como a onisciência, que já é imcompatível com a onipotência, é, em si mesmo, também um conceito incongruente.

Define-se a onisciência como “saber tudo”, ‘ter conhecimento de tudo”. Obviamente, há de se limitar este “tudo” às coisas de existência possível, pois é impossível conhecer algo que manifestamente não existe (é impossível, mesmo para um ser onisciente, conhecer um país da Terra onde as leis da matemática não se aplicam, por exemplo). Pode se imaginar algo assim, mas não conhecer. Então, como estamos tratando de um deus onisciente, e não onicriativo, podemos definir a sua onisciência como “a capacidade de conhecer todas as coisas que podem ser conhecidas”.

Vamos um pouco mais fundo. Deus, para ser onisciente, teria de conhecer tudo, e, neste tudo, deveria conhecer a si mesmo. Não só deveria conhecer a si mesmo, como também deveria conhecer completamente a si mesmo. Cada parte, mais ínfima, de si próprio.
Ocorre que isto é impossível. É impossível conhecer completamente a si mesmo, pois cada pedaço de informação necessária à descrição se si próprio, incorporada ao próprio conhecimento, gera ela mesma a necessidade de ser descrita (dado que passa a ser parte integrante do próprio ente).

Por exemplo, é impossível escrever um livro que descreva completamente a si próprio, pois a quantidade de informação necessária para descrever completamente este livro não caberia nele mesmo. Todos os espaços onde a informação pode ser registrada neste livro já seriam ocupados, para início de análise, pela descrição destes próprios espaços. E, como um livro não limita-se a estes espaços, existiria informação sem registro. No caso de querermos expandir o livro para caber mais informação, daríamos início a um raciocínio recursivo infinito, como podemos facilmente perceber.

Um homem, por exemplo, nunca pode conhecer a si próprio completamente. Conhecer completamente a si próprio requer que se conheça tudo o sobre seu próprio corpo e sua própria mente. Dado que para conhecer completamente a sua própria mente alguém necessitaria de espaço de armazenamento de informações pelo menos igual à sua própria mente (isso supondo a existência de um método perfeito e ideal de descrição), não haveria como conhecer o corpo.

Algo só poderia conhecer completamente a si mesmo se fosse pura mente, e mais nada. Mas, mesmo nesta hipótese, este ser de mente pura conheceria a si mesmo, completamente, mas não saberia nada sobre qualquer outra coisa.

A seguir,  um pouco sobre a onipresença.


Douglas Oliveira Donin é advogado, cético, liberal, democrata e sul-riograndense de Porto Alegre.
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Comentários dos Leitores

fiquei surpreso em descobrir que havia um link para o Teoria daqui, percebi isso olhando o blogblogs.com.br (que por sinal não entrava a uns 6 meses). muito bons os textos daqui, vou adicionar no meu agregador e ler sempre que houver algo novo :-)

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Tudo que foi analizado em seu comentario é relativo a coisas materias regidas pelas leis naturais.

Se Deus existe ele é sobrenatural.
Se Ele é sobrenatural,não é limitado pelas leis naturais
Se não é limitado pelas leis naturais, não há motivo para que seja limitado pelo tempo.

mas paradoxos do tipo apresentado no texto (você estava sugerindo algo identico ao paradoxo do conjunto de todos os conjuntos- de Russel, se não me engano) não surgem quando pensamos a origem do universo ou ,caso contrário, sua infinitude no tempo? Deus tem mais À mão para muitos por causa destes paradoxos, não que eu concorde com tal solução. Apenas quero resaltar que num mundo sem deus o universo quando pensado “nos seus extremos”- esse termo não foi muito claro, eu sei- também nos tem levado a quentões sem solução, paradoxais. Caimos nas aporias mais básicas que vem desde a grécia como se ” algo pode gerar seu oposto”.Pois como se deu a origem de tudo, digamos o primeiro movimento?O infinito é pensável?E aidéia de universo autocontido de stefan hawking tem sido aceita,?É plausível? Como são resolvidas atualmente pelos físicos?

http://www.afraudedoseculo.com.br/index.htm

O que você acha dessas coisas Douglas?
Será ‘verdade’ ?

abraços.

“É impossível conhecer completamente a si mesmo, pois cada pedaço de informação necessária à descrição se si próprio, incorporada ao próprio conhecimento, gera ela mesma a necessidade de ser descrita (dado que passa a ser parte integrante do próprio ente).”

Quem disse? Não há evidência empírica disso. E nem lógica parece fazer. Soa mais como um salto de “fé” em relação ao conhecimento do infinito. Lembrando que essa brincadeira de infinito é o que sustenta o argumento ontológico, talvez você devesse analisá-lo, ele é um dos melhores no conjunto de argumentos favor/contra a existência de Deus.

Ou então essa é mais uma confusão do problema mente-corpo, o qual ninguém solucionou até hoje. Ah, e se eu usar o materialismo eliminante, eu vou descobrir que todo estado mental é um estado material, não é? Pois então! Deus só precisa saber “que”, não precisa saber “como”. Não há necessidade de descrição, porque em si a sensação é uma descrição. Quem causou isso não fui eu. Reclame com Daniel Dennett, seu colega de crença.

E como já disse José aí em cima, isso é apenas uma versão do paradoxo de Russel. Talvez ninguém possa justificar a inexistência de Deus sem justificar a inexistência dos conjuntos, o que matematicamente é inválido.

Até a próxima.

Opa, meus comentários sumiram aqui também!
Alguma explicação por favor…

[...] parece estar em guerra com o mundo das religiões e a série dele sobre a impossibilidade de um ser onisciente e onipotente é algo a ser guardado por gerações. Vejam essa partezinha do texto sobre o loop [...]