Considerações sobre o deus cristão (I) - a Onipotência.
Um dos atributos clássicos - embora, como veremos, não tenha respaldo bíblico assim tão forte - do deus da mitologia cristã é que ele seria supostamente onipotente. Não só isso, como também, onisciente, onipresente e - pelo menos após o novo testamento - onibenevolente.
No entanto, há como argumentar que há uma inconsistência no conceito de onipotência, sem recorrer à teologia, mas sim, utilizando apenas a pura lógica. É um conceito que rui sobre si mesmo.
Isto não quer dizer que este deus, ou qualquer outro, não existe. Ocorre que, se existir, não é onipotente (pois nada, como demonstraremos, pode ser onipotente).
Uma maneira clássica de demonstrar o absurdo do conceito de onipotência é pelo famoso “argumento do rochedo”:
Dado que um ser onipotente pode qualquer coisa, ele também pode:
- fazer algo tão resistente que ele mesmo não possa quebrar;
- fazer algo tão pesado que ele mesmo não possa erguer;
- fazer algo tão imperceptível que ele mesmo não possa perceber;
- criar leis tão imutáveis que ele mesmo não possa burlar;
- (…) .
No entanto, isto vai contra o próprio conceito de onipotência, pois ou ele pode conceber tal objeto e não pode vencer com seu poder seu atributo principal, ou não pode concebê-lo.
Existem outras variações. Dado que um ser onipotente pode qualquer coisa, ele também pode decidir desaparecer completamente da existência. No entanto, ao fazê-lo, na sua ausência deixará de ser onipotente (pois o que não existe não pode exercer poder). Assim, não pode deliberadamente deixar de existir.
Da mesma forma, não pode deliberadamente deixar de ser onipotente.
Também, sendo onipotente, ele pode imaginar algo que não possa fazer. No entanto, fazendo-o, ou se depara com a incapacidade de fazer algo, ou com a incapacidade de imaginar algo. Isto vai novamente contra o próprio conceito de onipotência.
Freqüentemente o “argumento do rochedo” é atacado por defensores da mitologia cristã com contra-argumentos do tipo “Deus não é limitado pela lógica terrestre, ele possui uma lógica só dele, que não conhecemos, logo, estes argumentos com base na lógica não são aplicáveis e Ele continua sendo onipotente”.
Um contra-argumento frágil, como dá para ver. Continuamos encontrando limitações à onipotência fazendo apenas uma pequena adaptação maliciosa na pergunta: “Deus pode, operando estritamente dentro da lógica terrestre, fazer um rochedo tão pesado que ele mesmo não possa erguer?”. Obviamente, a resposta é não.
Austin Cline propõe uma variação elegante do problema:
“Ele não pode criar uma nota de dez libras genuína do Banco da Inglaterra. Ele pode produzir uma cópia perfeita de uma nota de dez libras (completa com a imagem de Darwin no verso) mas ela não seria genuína. Para ser genuína, ela deve ser produzida pelo Banco da Inglaterra, sob a égide do Governo inglês. Logo, o Governo pode fazer algo que Deus não pode (e deve ser por isso que Tony Blair tem uma opinião tão boa de si mesmo).”
Não só isso, a onipotência é absolutamente incompatível com os outros atributos do deus cristão, a saber, a onisciência, a onipresença e a onibenevolência. Os argumentos são igualmente básicos:
- Dado que um ser onipotente pode qualquer coisa, ele também pode escolher não saber de algo. No entanto, o fazendo, não seria mais onisciente, logo, há pelo menos uma coisa que ele não pode fazer sem deixar de ser onisciente. Logo, não pode ser ao mesmo tempo onipotente e onisciente. Logo, possuindo esta limitação, e não podendo optar por ser ambos os atributos ao mesmo tempo, não é onipotente.
- Dado que um ser onipotente pode qualquer coisa, ele também pode fazer o mal. No entanto, o fazendo, não seria mais onibenevolente, logo, há pelo menos uma coisa que ele não pode fazer sem deixar de ser onibenevolente. Logo, não pode ser ao mesmo tempo onipotente e onibenevolente. Logo, possuindo esta limitação, e não podendo optar por ser ambos os atributos ao mesmo tempo, não é onipotente.
- Dado que um ser onipotente pode qualquer coisa, ele também pode ausentar-se de algum lugar. No entanto, o fazendo, não seria mais onipresente, logo, há pelo menos uma coisa que ele não pode fazer sem deixar de ser, ao mesmo tempo, onipresente. Logo, não pode ser ao mesmo tempo onipotente e onipresente. Logo, possuindo esta limitação, e não podendo optar por ser ambos os atributos ao mesmo tempo, não é onipotente.
Evidentemente, o próprio conceito de incompatibilidade é contrário ao de onipotência. Incompatibilidade não seria problema algum para um ser plenamente onipotente, mas a verificação da menor incompatibilidade faz ruir a onipotência.
Saindo do campo da filosofia, e entrando no campo do folclore no qual se baseia o cristianismo, vemos que a própria bíblia cristã é contraditória sobre (mais) este ponto. Em Jeremias 32, versículo 27, o deus cristão, em um de seus habituais rompantes de vaidade, alega: “Eis que eu sou o SENHOR, o Deus de toda a carne. Acaso, seria qualquer coisa maravilhosa demais para mim?“
Mas, em Juízes 1, versículo 19, a resposta a esta questão é dada pelo narrador do causo: “E foi o SENHOR com Judá, e despovoou as montanhas; porém não expeliu os moradores do vale, porquanto tinham carros de ferro.” Ao que parece, não é preciso o proverbial rochedo de peso infinito, este deus não pode levantar meras charretes de ferro.
Também, em Hebreus, 6, versículo 18, lemos que “para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta“. Assim, está fora da capacidade de deus mentir (e isso mesmo é assunto de controvérsia, pois ele mentiu assumida e desavergonhadamente várias vezes durante a estória). Esta opinião é repetida em Tito 1, versículo 2 (”em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos“).
Jesus (que pela estória seria o próprio deus) também ficou frente às suas próprias limitações quando, em Marcos 6, versículo 5, descobriu que “E não podia fazer ali obras maravilhosas; somente curou alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos.“
O assunto ainda rende muito pano para manga. Mas, antes de voltarmos à uma análise mais profunda da onipotência, inclusive a teoria do voluntarismo, no próximo post falaremos sobre a onisciência.



Olá, não sou cristão, mas queria adicionar uma dimensão que não foi considerada a respeito da onipotencia.
Inicialmente a onipotencia é a capacidade livre de agir de acordo e exclusivamente apenas limitado por sua propria vontade, isto é, aquilo que desejar é completamente realizado, pois não é restrito por outras circunstancias.
Pois bem, dado um ser onipotente, e onisciente, ele cria uma rocha que nao pode erguer. Enquanto ele “sustenta” esse desejo, ele continua onipotente, pois aquilo que criou permance da forma que determinou.
Em outras palavras, a onipotencia é a meu ver a potencialidade sem restricoes externas, mas a medida que o proprio ser cria regras a que ele proprio se submete, ele se autolimita, mas tendo a compreensao completa do que ele criou a limitacao pode levanta-la a qualquer momento, desde que obedeca todas as regras que estabeleceu.
Um ser humano é completamente capaz de andar; mas se ele decide ficar parado nao significa que ele nao possa andar; ele so precisa querer andar novamente.Por isso o ser oniciente pode criar uma pedra que nao consegue levantar, mas pode se desfazer dela.
O mesmo com a libra. Ele pode fazer uma copia ilegal, mas sendo onipotente ele pode mudar a autoridade que gera a nota oficial.