Carlão
Carlão era corintiano de coração. Fiel, mesmo. Apoiou o clube durante o jejum de 1960, estava lá no primeiro título nacional, de 1990, e guardava emoldurada, com muito carinho, a camisa autografáda por Sócrates, Casagrande e Zenon, em lugar de honra na sua sala, ao lado da foto de seu casamento. Apesar disto, Carlão era uma pessoa muito razoável: nunca misturava futebol com outros assuntos, e se relacionava bem com muitos palmeirenses, santistas e são-paulinos.
Tanto era razoável que decidiu não impor a preferência de time algum sobre seu filho, Carlinho, de 5 anos. Se o quisesse, certamente o transformaria em um corintiano, mas Carlão julgava isso uma ofensa à liberdade de seu filho. Carlinho, dizia, cresceria em um ambiente neutro até a idade na qual livremente determinaria qual seria o seu próprio time do coração. Torcia em segredo para que fosse o Corinthians, mas, se o filho assim decidisse, poderia até ser o Palmeiras: aceitaria, mesmo que a contragosto, mas teria certeza de que não impôs nada egoisticamente ao filho.
Qual não foi a sua surpresa quando, ao procurar uma escola para matricular o seu filho, só encontrou escolas palmeirenses. “Educaremos o seu filho”, diziam, “mas antes de tudo o transformaremos em um palmeirense.” Carlão tentou em vão argumentar: disse que não queria contratar serviços de doutrinação palmeirense, mas sim, contratar serviços educacionais. Os diretores eram inflexíveis: ou recebiam carta branca para transformar Carlinho em palmeirense, ou se recusavam a educá-lo.
Chegou a ouvir de um diretor que “tinha destruído sua vida escolhendo o Corinthians, e que não tinha o direito de destruir a vida do seu filho permitindo que ele corresse o risco de escolher qualquer outro time senão o Palmeiras”. Achou este argumento meio estranho: sempre foi muito feliz torcendo pelo Corintians, time que lhe deu muitas alegrias. Recebeu, em resposta, a alegação de que “não era verdadeiramente feliz, só se sentia feliz” (pensou consigo mesmo: mas o que é ser feliz senão se sentir feliz?).
Aquilo revoltou Carlão. Queria educar seu filho, não doutriná-lo a torcer por um ou por outro time de futebol. Carlinho tinha 5 anos, estava na idade de acreditar em qualquer coisa dita por um adulto, e certamente não questionaria se lhe dissessem que ser palmeirense é legal e ser corintiano é mal, feio ou pervertido. E, acima de tudo, amava a liberdade: onde ficava a liberdade de Carlinho ao ter uma preferência futebolística arremessada goela abaixo?
Mas, a cada escola que visitava, ouvia sempre a mesma conversa: era fundamental, imperativo, essencial, que concordasse antes de tudo com uma educação futebolística palmeirense. Depois, vinha a educação científica propriamente dita.
Começou a se questionar qual era a verdadeira intenção dos palmeirenses, ao dedicar tanta energia em controlar as escolas. Por que? Estariam mesmo, como diziam, preocupados com a formação das crianças, ou, como tudo levava a crer, desejavam simplesmente criar uma sólida base de torcida controlando um terreno estratégico?
Carlão andou pela cidade inteira procurando uma escola particular que não fizesse, antes de tudo, questão de doutrinar seu filho como palmeirense. Achou duas que, no entanto, deixaram bem claro que só educariam seu filho se pudessem o transformar em um são-paulino completo e incondicional - o que dava no mesmo.
Inconformado, procurou a rede pública. Matriculou seu filho na melhor e mais tradicional escola pública que encontrou (que, mesmo assim, não se comparava a uma particular, mas era o preço pela liberdade futebolística de seu filho). Em conversa com o diretor da escola, saiu animado: aquela escola não doutrinava para torcer para um ou outro time, pois o Estado não possui vinculação com um ou outro time de futebol. Apenas ensinaria quais são os times brasileiros, os escudos, os principais craques, os estádios, estas coisas – mas sem vinculação.
Certo dia, em casa, foi surpreendido com uma pergunta do seu filho: por que ele, Carlão, era corintiano, se ser palmeirense é feliz, bonito e bom? Alarmado, perguntou onde ele tinha ouvido isso, e, para sua revolta, descobriu que tinha sido na escola. Não só isso: descobriu que antes de cada aula, era cantado o hino do Palmeiras, que era lido um trecho do estatuto da Mancha Verde e que o tal “ensino sem vinculação” simplesmente reservava uma aula, no final do ano, para citar os outros times que não o Palmeiras, e mesmo assim só para dizer porque é errado torcer por eles e não pelo Alviverde.
Pior do que isso: descobriu que na aula de biologia o professor (evidentemente palmeirense) ensinava uma teoria alternativa que explicava porque as árvores são verdes: ao invés de possuírem clorofila, elas tinham sido criadas assim por torcedores do Palmeiras. As cianças eram inclusive instruídas a zombar da Teoria da Clorofila, que, segundo o professor, levaria ao corintianismo, ao crime e a todo tipo de perversão.
Ensandecido, procurou o diretor da escola. Este, o que não é surpresa, recebeu Carlão dizendo que “ensinar a ser palmeirense não é ofensivo à liberdade de escolha da criança, pois, a qualquer momento da vida adulta, ela ainda poderia escolher outro time”. Carlão argumentou que dificilmente alguém troca de time depois que aprende a gostar de um, e o diretor respondeu que “dificilmente troca, mas não é impossível, logo, a liberdade não é ameaçada”. Quanto às árvores, o diretor disse que não há prova científica alguma de que há clorofila no interior das árvores (o que seria, segundo ele, absurdo: como uma árvore poderia guardar água sanitária em seu interior?), e que seria “coincidência demais” as árvores serem verdes como o Palmeiras, o que sugere que há uma inteligência palmeirense por trás de tudo.
Finalmente, Carlão tomou coragem, contratou um advogado e foi à Justiça apresentar seu problema. Tudo o que queria era uma escola sem vinculação futebolística e, mesmo na esfera pública, não achava uma. Isso era plenamente inconstitucional (se bem que sempre achou estranho a Constituição dizer que o Estado não possui vinculação futebolística e, em seu preâmbulo, dizer “nós aqui reunidos sob a égide do Porcão Alviverde”).
No dia da audiência, tomou um susto: logo acima da cadeira do juiz, um grande símbolo do Palmeiras. Pensou que tipo de sentença poderia sair dali.
O juiz entrou, sentou-se, leu a capa do processo e riu. Extinguiu o processo sem julgamento, argumentando que, como a questão não era importante, havia falta de interesse de agir por parte de Carlão (que pensou: se não tivesse interesse em agir não estaria ali, pagando custas processuais e um advogado, ora!).
Foi ao Tribunal de Justiça, buscando encontrar um julgamento justo (encontrou, primeiro, um símbolo do Palmeiras ainda maior, bem acima da cadeira do Presidente). Mesmo assim, os desembargadores, depois de algum murmurinho e alguns risinhos, começaram a dar seus votos.
O primeiro, eminente jurista (e conselheiro do Palmeiras) disse que era inegável que o Palmeiras era um grande time, citou várias conquistas, falou da Libertadores de 1999, falou do Palestra Itália, e conclui dizendo que “não fazia mal nenhum – muito pelo contrário – ensinar, desde cedo, a criança a ser palmeirense, pois enquanto torce para o Palmeiras ela não está roubando ou traficando”.
Carlão não só achou que aquilo não tinha nada a ver, pois já tinha visto vários bandidos na TV serem presos com a camisa dos mais variados times, incluindo o Palmeiras, como achou um pouco ofensivo e preconceituoso: ele, corintiano, nunca roubou ou traficou, bem como o Marcão, que era santista, ou o Osmar, que era são-paulino.
O segundo voto tentou ser mais conciliador. Disse que os imigrantes italianos instituíram o clube já havia tantos anos, e que já fazia parte da cultura brasileira ser palmeirense, logo, o fato de haver escolas palmeirenses e símbolos palmeirenses em repartições públicas só reflete a tradição da sociedade. Carlão pensou que o mesmo argumento poderia ser utilizado para justificar a corrupção no judiciário, ou dirigir embriagado, ou a violência nos estádios, ou qualquer outro traço cultural brasileiro indesejável, mas não falou nada.
O terceiro voto, de um desembargador muito idoso e carrancudo, citou um grande trecho do estatuto da Mancha Verde e questionou, nos fundamentos jurídicos, se não havia algo mais absurdo e anti-natural do que as “árvores serem verdes por causa de uma substância que ninguém até hoje viu chamada clorofina”. No final, invocou até o Espírito Porco.
Carlão, então, plenamente ofendido, criou uma bastante ofendida página na Internet onde juntou mais três centenas de ofendidos. Juntos, criaram a ACO – Associação de Corintianos Ofendidos e, ofendidos, ingressaram no Superior Tribunal de Justiça argumentando que o fato de as escolas públicas estarem vinculadas ao Palmeiras e a presença de símbolos palmeirenses em repartições públicas não somente era inconstitucional como, de fato, os ofendia. Para sua surpresa – e ofensa - sua demanda foi negada pois, segundo os ministros do STJ, “aquilo nunca ofendeu ninguém”.



Perfeito.