Cinema Trash Turco - Final
Copyright. Direitos autorais. Royalties. Conceitos inexistentes no vocabulário jurídico da Turquia. Enquanto no ocidente os advogados passam meses ou anos (ou, como no caso do Homem-Aranha, décadas) negociando os direitos de adaptação de uma ou outra obra, lá na Turquia eles simplesmente metem a mão na massa direto, sem autorização nem nada.
Às vezes, o filme estava sendo lançado no ocidente e sua cópia turca já estava sendo produzida, sem o conhecimento dos autores ou realizadores originais. Esta semana, conheceremos outras obras que dispensaram a autorização e simplesmente clonaram sucessos americanos, do mesmo modo que Dunyayi Kurtaran Adam (Star Wars Turco) e 3 Dev Adam (3 Homens Poderosos), assuntos das duas colunas anteriores, fizeram.
Badi (E.T. turco, 1983) - Este é um filme REALMENTE perturbador. Doente. Medonho. Sério, deveria ser uma produção infantil, mas qualquer criança que sequer colocar os olhos neste filme vai instantaneamente perder o controle das funções intestinais e precisar de medicação pesada para dormir pelos próximos 40 anos.

Na história, um alienígena macabro (o mais pavoroso boneco que já apareceu em um filme, juro) que mais parece um cruzamento doentio entre uma batata-doce, um pênis gigante, um anão deformado e o Mr. Hankey, se perde nos arredores de Istambul, onde é acolhido por um menino com bom coração e sangue-frio o suficiente para manter o bicho medonho por perto.
Ao contrário do original de Spielberg, e seguindo a cartilha das refilmagens turcas, aqui há mortes gratuitas a granel: quase todos os adultos que encontram o extraterrestre pelo caminho morrem do coração, para a felicidade das crianças, que ficam rindo sadicamente ao redor das agonizantes vítimas.
No final, em vez de fugir de bicicleta para proteger o amigo espacial, as crianças promovem uma verdadeira guerra civil na capital turca, com direito a barricadas e bombas, mostrando que no leste europeu o buraco é bem mais embaixo. Lembram do E.T. na cestinha da bicicleta do Elliot? Aqui ele voa de carrinho de feira! Só de lembrar aquele maldito anão deformado, mal e mal se equilibrando, perambulando pela casa já me dá arrepios…
Veja perturbadoras cenas desta megaempreitada cinematográfica acima…
… ou baixe esta maravilha aqui (torrent)
Turist Omer Uzay Yolunda (Jornada nas Estrelas Turco, 1974) - Um turista turco malandrão dos anos 70 chamado Omar repentinamente some do casamento que estava assistindo! Mas não há nada a temer, pois foi só a nave espacial Enterprise que passou coincidentemente por ali e o teletransportou por acidente. De todo jeito, o folgado Omar, mesmo sem conhecimento técnico ou científico adequado, passa a fazer parte da tripulação da nave, que também conta com um Kirk absolutamente gay, um certo “Sr. Spak” e outros clones turcos do pessoal da Federação.

Para os fãs de Jornada nas Estrelas, este é obrigatório: o plágio é tão descarado que vários momentos e inimigos famosos da série estão lá (o vampiro de sal, o duelo entre Kirk e Spock com os bastões…) em um roteiro caleidoscópico que não faz o menor sentido. Os motivos que levam Kirk a escalar um turco malandro e vagabundo de 1970 para fazer parte do grupo avançado nas missões ainda é uma incógnita. A abertura foi roubada impiedosamente da série americana, mas “só para disfarçar”, inverteram as cores e trocaram a música. Como se adiantasse!
Fascinating, Captain. The sensors show this is a unashamed copy of our show!
Beam it down, Scotty!
Seytan (O Exorcista turco, 1974) - O quê você tem quando pega “O Exorcista”, retira toda a intensidade psicológica, minimiza as referências cristãs (a religião da Turquia é o islã) e aumenta o nível de sangue, violência, baixaria e nudez? O resultado é Seytan, a cópia turca sem-vergonha e roubada cena-por-cena do clássico de William Friedkin, feita apenas um ano após o original. Para variar, até a trilha sonora é abduzida da sua contraparte ocidental. Também conhecido como “Turksorcista”. Tem até a cena do vômito e da cabeça virando 360°.
O Poder de Deus te compele a assistir! O Poder de Deus te compele a assistir!
Aysecik ve Sihirlib Cucler Ruyalar Ulkesinde (O Mágico de Oz turco, 1971) - Se você tomar sete quilos de LSD e em seguida assistir ao original com Judy Garland em um cenário de Silent Hill iluminado por luz estroboscópica vermelha e cheio de retratos do Aphex Twin na parede, enquanto um anão besuntado de tanga dança e fala de trás para frente ao lado da tela, o resultado ainda assim será menos demente do que este filme.

No Leste Europeu, mostrar a bunda é sinal de amizade
Saem munchkins e macacos alados, entram homens das cavernas dançarinos e anões canhoneiros. Pelo menos a Dorothy turca, chamada Aysecik, é bem bonitinha, tendo reprisado o papel em outros 16 filmes (o nome da atriz que é impronunciável: Zeynep Degirmencioglu). Já o espantalho é assumidamente homossexual.
“Eu acho que não estamos mais na Turquia, Totó!”
Link E-Mule para a Bruxa Má do Leste Europeu aqui.
Süpermen dönüyor (Super-Homem turco, 1979) - Nesta refilmagem cara-de-pau da obra-prima de Richard Donner, lançada menos de um ano após o original, o último filho de Krypton - ou, a julgar pelo início do filme, um bebê originado na Zona de Orçamento Negativo, uma tela de veludo preto com purpurina e cheia de ornamentos natalinos vagabundos pendurados - resolveu trocar as fazendas do Kansas pelas mesquitas de Istambul.
Embora não seja tão mau quanto o Homem-Aranha turco, este Super-Homem aparentemente está pouco se lixando para a correção política, matando bandidos desnecessariamente e por meios bastante sanguinários. Os efeitos especiais são terríveis, o que não impede o Super-Homem (ou um boneco do herói suspenso por uma cordinha na frente de uma TV) de voar demoradamente por cima de todo e qualquer pedaço da geografia da Turquia disponível no banco de imagens aéreas da nação. Ganha um doce quem adivinhar de onde foi roubada a trilha sonora.
Você vai acreditar que um homem pode voar. Pela janela, de vergonha.
Também há uma série de versões hindus do Homem de Aço, para todos os que achavam que o único super-herói da Índia era o Dhalsin, ainda mais precária, onde Shekhar (”Clark Kent”) luta contra o gênio do crime Verma (”Lex Luthor”) ao mesmo tempo em que busca conquistar a repórter Gita (”Lois Lane”). Várias das versões clonam desavergonhadamente o roteiro do primo rico americano, com o plot da destruição de parte da Turquia e da Índia para valorizar os empreendimentos imobiliários de seus respectivos Lexes Luthores.
Surpreenda-se com a versão indiana do Homem-de-Aço acima…
E cante e dance com o Último Filho de Krypton acima!
Drakula Istanbulda(o Drácula turco, 1953) - Depois de apanhar feito um cão leproso de Van Helsing, o príncipe das trevas resolveu aproveitar que a Turquia fica praticamente do lado da Romênia e tirar férias em Istambul. Mal sabe o Príncipe das Trevas que, devido à sobrenatural cara-de-pau dos cineastas turcos, a história original se repetirá tintin por tintin. Como o filme se passa em um país islâmico, pelo menos aqui o dentuço pode ficar um pouco mais sossegado, pois ninguém o enfrenta com crucifixos. Uma curiosidade: na cena do cemitério, de acordo com o livro Mondo Macabro, toda a névoa foi produzida por cerca de 40 integrantes da equipe de produção deitados atrás do cenário, fumando e soprando a fumaça para cima!

Altar(O Conan turco) e Tarkan (outro Conan turco) - Na década de 80, após o sucesso do filme com Arnold Schwarzenegger, um monte de genéricos vagabundos do Conan apareceu cinema afora. Mas quem teria mais autoridade e know-how para clonar sucessos americanos do que a Turquia? Por isso, não há uma, mas DUAS cópias do Gigante de Bronze! Tarkan foi um estrondoso sucesso, garantindo várias continuações. Em uma delas o famoso herói cimério, digo, turco, enfrenta até mesmo polvos de borracha e vikings psicopatas para salvar a Aquilônia, digo, Istambul da destruição.


E, para quem chegou até aqui, um brinde:
Ölüm savasçisi(Death Warrior, 1984) - Um mega-hit turco de ação/policial com o maior ator da Turquia, Cuneyt Arkin (o invencível “Cid Moreira” de Dunyayi Kurtaran Adam, assunto da coluna da semana retrasada). Este filme não é, espantosamente, uma cópia deslavada de um sucesso americano qualquer.

Mesmo assim, Death Warrior é o mais insano, retardado, incoerente, despropositado, demente, sem-pé-nem-cabeça, absurdo, espantoso, confuso e hilário filme de artes marciais já feito no planeta Terra (com possível exceção do Star Wars Turco), chupando elementos de centenas e centenas de filmes de kung fu baratos chineses com uma ou outra pitada de plágio de filmes americanos, como as cenas na floresta, roubadas de Evil Dead.

A história é fabulosa: quando um grupo de ninjas psicopatas toca o terror em Nova York (basicamente invadindo de surpresa os quintais alheios com gigantescas espadas árabes de plástico e afogando garotas em piscinas, no maior estilo “Os Pirata” de Renato Aragão), os americanos reconhecem que são frutinhas demais para lidar com o assunto e que só um legítimo turco seria macho de verdade para acabar com esta onda de crimes. Assim, apelam para o governo da Turquia, que envia o másculo Inspetor Kemal (lê-se “Q-mau”, interpretado por Arkin) para devidamente passar o sarrafo nos delinquentes e salvar a bunda gorda e imprestável dos americanos da destruição iminente.
Assim que o testosterônico policial turco chega na cidade que nunca dorme, qualquer resquício de história que o filme pudesse ter é chutado para a órbita de Plutão e a pancadaria começa a correr solta na mais inacreditável sequência de cenas de ação aleatórias jamais concebida por um ser humano. Kung fu de meia-tigela, ninjas com espadas gigantes de plástico, motoqueiros brigões, karatecas com poderes Jedi de telecinese, múmias-ninja peludas, pedras explosivas, árvores explosivas, mulheres-lagarto (explosivas), monstros que caem de pára-quedas na história, garotas de biquíni, pessoas mortas com arremessos de cartas de baralho, golpes de espada sendo defendidos com a mão, plantas carnívoras assassinas e muito, muito mais amontoam-se sem lógica ou continuidade alguma em um crescendo de absurdo que faz deste filme uma das mais intensas experiências alucinógenas disponíveis na atualidade.

O final está fora dos limites de qualquer escala de loucura jamais teorizada! É ver para crer! Não vou falar mais nada para não estragar a surpresa, mas ver a última cena deste filme mudará a sua vida para sempre. Trazido a vocês por Cuneyt Arkin e Çetin Inanç, que escreveram e dirigiram este filme, as mesmas mentes anormais por trás do Star Wars turco.
Por tudo o que é mais sagrado, baixe o torrent aqui!
Bem, pessoal, chega de filmes turcos! Agora é colocar a banda larga para funcionar e procurar estes filmes pela internet. Eu indico o Star Wars turco e Death Warrior para começar, devido ao nível espantoso de insanidade. Alguns fórums possuem os links de quase todos estes filmes para download, basta dar uma boa pesquisada. E, por tudo o que é mais santo neste mundo, não veja os filmes sozinho: orquestre uma seção com os amigos, regada a pipoca e pizza, deixe a ambulância e a camisa-de-força de prontidão e prepare-se para as mais hilárias, bizarras e extremas experiências cinematográficas da sua vida.



[...] E depois dizem que só os turcos copiam… [...]