Cinema Trash Turco - Parte 2


Semana passada, em nossa primeira incursão pelos hilários descaminhos do cinema trash turco, apresentamos ao leitor o absolutamente clássico Dünyayi Kurtaran Adam, mais conhecido por estas bandas como “O Star Wars Turco”, aquele que é, muito possivelmente, a pior peça cinematográfica jamais colocada em película por qualquer representante da raça humana. Esta semana continuaremos nossa trajetória descendente pelas excitantes trilhas da inépcia cinematográfica do leste europeu, contando uma história não tão conhecida sobre três heróis bastante famosos. Ou dois heróis. Ou um.

O primeiro dos nossos personagens é o internacionalmente famoso Capitão América, o supersoldado americano, ícone do patriotismo ianque. O segundo é o lutador de lucha libre Santo, El Emascarado de Plata, o maior herói da cultura popular mexicana (o quê? Achou que fosse o Zorro? Zorro foi criado por Johnston McCulley em 1919 - é um herói americano!). O terceiro é o amigão da vizinhança, o Homem-Aranha. Agora, o que você me diria se eu contasse que, em sua primeiríssima aparição cinematográfica, o Homem-Aranha era um perigoso assassino? E que, neste filme, o Capitão América trabalha para o governo da Turquia?

Exato! Da mesma forma que em Dünyayi Kurtaran Adam a saga espacial de George Lucas foi roubada, estraçalhada e reciclada à moda do Mar Negro, em 3 Homens Poderosos (3 Dev Adam, 1973), outro favorito cult movie turco, estes três famosos heróis foram os produtos da cultura do continente americano a ser “pegos emprestados” pelos cineastas otomanos, sem aviso ou autorização, descontextualizados e reinventados.

Aqui o Homem-Aranha não é só um vilão - ele é muito, muito MAU. Para se ter uma idéia, logo no começo do filme, o aracnídeo enterra uma mulher até o pescoço na areia e a executa com uma hélice de motor de lancha, sem motivo mais nobre do que a mera vontade de ser mau. De qualquer forma, o cabeça-de-teia está aterrorizando Istambul com uma série de roubos e, desesperado, o governo da Turquia recorre ao bandeiroso Capitão América e ao imbatível Santo, os dois únicos seres humanos capazes de colocar um ponto final no rompante assassino do aracnídeo.

Talvez o leitor possa estar se perguntando, como com certeza deve ter feito na análise do filme anterior, se esta produção não é pura sacanagem ou palhaçada, algo do gênero Hermes e Renato, feito por um grupo de nerds turcos com a única intenção de tirar um sarro da cultura ocidental. Embora possa dar esta impressão, já que nenhuma empresa cinematográfica séria do ocidente seria tão sacrílega com os direitos autorais alheios, está longe de ser verdade: estes filmes são grandes produções da indústria cinematográfica turca, estrelados por grandes astros do país. Também está longe de ser um filme infantil: dezenas de pessoas morrem das piores maneiras, há sexo e nudez. É para ser um filme sério e para adultos. Como explicar tamanho desrespeito pelos direitos autorais, então?

Devido a turbulências políticas, a Turquia atravessou nas últimas décadas períodos de extremo nacionalismo, onde o acesso da população a produtos culturais do ocidente, tais como o cinema americano, era repentinamente censurado ou cortado de vez. Apesar disso, o povo (principalmente os jovens) queria ter contato com os heróis do ocidente, que chegavam aos cinemas turcos esporadicamente e com grande sucesso. Um deles era justamente Santo, luchador mexicano astro de dezenas de filmes muito famosos no méxico, como Santo contra las mujeres vampiro (1962) e Santo en El tesoro de Drácula (1969), cujos filmes viraram febre na Turquia. O Capitão América também era bastante conhecido, graças, talvez, ao seriado cinematográfico de 1944.

O inexplicável, mesmo, é o Homem-Aranha. Vilão? Isso mesmo, e dos piores: além de matar a pobre moça com um motor de lancha, como já foi dito, neste filme o seu rol de bandidagens passa por estrangular um casal que faz sexo em pleno banho, esfaquear pessoas pelas costas, e, em uma cena absolutamente inacreditável, destruir o rosto de um refém com dois porquinhos-da-índia assassinos famintos. Há de se supor que o aracnídeo também seja usuário de drogas pesadas, já que, em uma cena de sexo onde o vilão “traça” uma belezura turca, a cena de rala-e-rola é subitamente interrompida por… um macabro diálogo entre duas marionetes!! E nada de teias, também: no filme inteiro, não há uma só cena onde ele utilize as teias para qualquer finalidade, embora o cartaz do filme o mostre se balançando. Aliás, nem subir pelas paredes. E nem sentido de aranha. O único super-poder do Homem-Aranha, neste filme, é fazer cópias de si mesmo (?). Ah, ele também possui sobrancelhas enormes, mas isso não deve ser considerado como um super-poder.


Assista a trechos da super-produção

Pequenas adaptações também foram feitas nos outros personagens, embora não tão radicais. O Capitão América turco não utiliza escudo, e também não dá a mínima para identidade secreta: quando requisitado, troca de roupa mesmo no acostamento de uma estrada movimentada (aliás, o ator que interpreta o Sentinela da Liberdade é Aytekin Akkaya, o “Dedé Santana” do Star Wars Turco). Já o imbatível titã mexicano aparece sem máscara pela primeira vez na sua vida, na cena em que está tomando banho (o quê, acham que é muito exigir que tome banho de máscara? Ora, nesta mesma cena ele está de cuecas embaixo do chuveiro, então qual seria problema?). Como seu uniforme é fácil de ser reproduzido, até engana… ao contrário do uniforme do Capitão.

Embora não seja o maior exemplo de como o cinema turco possa ser assustadoramente tosco - Dünyayi Kurtaran Adam ainda é imbatível neste sentido - é outra obrigatória pérola da capital mundial dos filmes ruins, recheada de ação fajutíssima, enredo nonsense e estupro generalizado de direitos autorais (a música tema é a mesma de “Os Diamantes são Eternos”, e os produtores nem devem ter cogitado a hipótese de pedir permissão à Marvel ou ao verdadeiro Santo, que deve ter morrido em 1984 sem mesmo saber da existência deste filme). Imperdível para os verdadeiros fãs de quadrinhos e amantes do cinema de má qualidade!

A seguir, mais violações de copyright, com as versões otomanas de E.T., O Exorcista, Super-Homem e O Mágico de Oz, no fim de nossa viagem ao cinema da Turquia.


Douglas Oliveira Donin é advogado, cético, liberal, democrata, capitalista, utilitarista e sul-riograndense de Porto Alegre.
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Comentários dos Leitores

Esse filme tem um feeling de pornochanchada. Estou convencendo uns amigos meus, que têm um cineclube a passar essas belezinhas. Mal posso esperar pela próxima matéria :)

Fera cara, posta os torrents dos outros tmbm

Realmente, os filmes do incrível Cuyent Arkin são imbatíveis! Aconselho assistirem ao documentário do Mondo Macabro intitulado “Turkish Pop Cinema” com entrevistas e anedotas de um muito simpático, e já bastante envelhecido, Arkin. Uma rápida correção - 3 Dev Adam é com também incrível Aytekin Akkaya e não com Arkin. Os dois trabalharam juntos na versão de Guerra nas Estrelas. Quanto a dizer que foi o pior filme jamais feito - hum…realmente, é pra lá de trash, mas mesmo assim considero a produção norte-americana “Manos - the Hands of Destiny” ainda campeão na categoria “quanto pior, melhor”.

abrs., s., rio.

“Uma rápida correção - 3 Dev Adam é com também incrível Aytekin Akkaya e não com Arkin.”

Sim, e foi exatamente isso que eu disse no texto! O Capitão Turquia, digo, América, é interpretado pelo fabuloso Aytekin Akkaya!