Solipsismo


Uma das táticas mais absurdas para empatar um debate é a utilizada por aquele que, acuado por um argumento mais espinhoso, corre da discussão para se refugiar atrás de hipóteses solipsistas. Isso frequentemente irrita os adversários que, embora munidos com evidências e argumentos válidos, se percebem impotentes e diante de um abismo sobre o qual o enfrentamento de idéias não continuará.
O solipsismo, em linhas gerais, é a crença filosófica de que além de nós mesmos e de nossas experiências, nada existe. Como todas as evidências da existência de um mundo exterior chegam a você pelos seus sentidos, como garantir que seus sentidos não sejam criação da sua mente? Que seus amigos, parentes, os objetos que o cercam não sejam componentes de uma historinha que a sua consciência - a única coisa que existe em todo o universo, ou o próprio universo - cria para si mesmo?

Existem variações da idéia, menos radicais. Por exemplo, alguém pode utilizar derivados do solipsismo para argumentar que uma árvore não é verde, alegando que, como é impossível olhar pelos seus olhos, não há como ter certeza que a idéia que corresponde pare ele corresponde a “verde” para você também corresponda. Isso frequentemente deságua em um estéril e radical relativismo, que inviabiliza a discussão substituindo a matéria do debate por um emaranhado de incertezas que não podem ser vencidas.
O solipsismo já foi criticado competentemente e ridicularizado por muitos, mas é uma hipótese permanente. Não há como descartar logicamente a hipótese solipsista. Alguém pode fornecer provas e mais provas, de todos os tipos possíveis, que sim, existe um mundo exterior ao solipsista, mas este sempre pode alegar que tais “provas” são peças que a sua mente prega nele mesmo. Se um solipsista firma sua posição, não há como arrancá-lo racionalmente de lá.
Existem aqueles que, por desonestidade ou cacoete, sempre deixam a porta do solipsismo aberta para ter uma rota de fuga fácil, caso a discussão se mostre perdida. O solipsista (mesmo o desonesto, aquele que não acredita realmente na hipótese, apenas a guarda como “arma secreta” para não dar o braço a torcer) pode tentar convencê-lo da verdade de algo evidentemente falso. Você pode argumentar e mostrar a evidência contrária. Ele, então, correrá para trás do solipsismo (os mais modernos gostam de se socorrer, mesmo sem conhecimento algum do assunto, também da física quântica, citando conhecimentos de orelha de livro sobre princípio da incerteza, dualidade, não-localidade, etc) dizendo que não há garantias de que a sua prova, que é de fato e naturalmente evidente, não seja senão uma percepção de vocês dois que pode muito bem estar errada.

O prazer favorito do solipsista é a negação da realidade objetiva, é se sair de uma discussão intrincada sobre certo fato com a “sabedoria” de que, para começo de conversa, não há certeza de que o fato exista. Mas eles não costumam ser tão rígidos nisso: se a realidade corrobora seus argumentos, ela existe; se não, ela é uma mera percepção. Seu objetivo principal, no que se identificam com os relativistas, é a redução da verdade a uma mera opinião: “bem, para você isso é X, para mim é Y, e como não há garantias de que qualquer um de nós esteja certo, então são meras opiniões, e portanto têm o mesmo valor”.

Não há meio lógico de vencer o solipsista em uma argumentação racional. Nem ele quer vencê-lo: a argumentação solipsista pretende simplesmente empatar a discussão, colocar duas idéias desiguais em pé de igualdade. O máximo que um debatedor pode fazer contra um adversário com tendências solipsistas é tentar não chegar a este ponto da discussão.

O recurso solipsista pode decorrer de uma circunstância de confronto onde, movido pelo pânico de não ver lograr sua argumentação original, o debatedor - que geralmente não acredita na hipótese, só a utiliza como último recurso - “derruba a mesa” com a invocação do solipsismo para impedir o prosseguimento do debate. Ou seja, geralmente é utilizado em circunstâncias extremas (frequentemente perante uma platéia) para proteção do próprio ego do debatedor, que não suportaria sua tese ser desarmada de movo vexatório, lançado como cortina de fumaça momentos antes da derrubada da posição defendida. Neste caso, se quiser se manter longe do cenário, o debatedor atacante deve utilizar a psicologia, proceder com cautela, tato e calma - talvez já minando, no decorrer do discurso, a hipótese solipsista com algumas insinuações espirituosas (dirigidas aos ouvintes), o que fará que, uma vez tentado a fugir, o adversário pelo menos não pise neste terreno.


Douglas Oliveira Donin é advogado, cético, liberal, democrata, capitalista, utilitarista e sul-riograndense de Porto Alegre.
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Comentários dos Leitores

A mesma coisa que discutir com uma sinesteta. Só que o solipsismo é metafísico a sinestesia é física-sensorial. Digo porque tenho uma amiga com essa doença.

Excelente visão sobre o tema! Conheci o termo revisando uma tradução de um artigo do Vilém Flusser e definitivamente me dei conta de que tudo o que já pensei já foi pensado por algum filósofo antes. Apenas, se puder, reveja a frase em que fala da visão do “verde” da árvore. Está perfeitamente “entendível”, mas mal construída. Cacoetes de revisora amadora, mas é porque você escreveu muito bem e merece consertar essa única frase. Parabéns.