O guia DUVIDO de demagogia eleitoreira
Basta começar o período de propaganda eleitoral gratuita (aliás, esta história de “gratuita” nunca me convenceu) que começa o espetáculo da hipocrisia. Quando achamos que nada poderia ser pior do que a campanha passada, os candidatos - e, principalmente, seus publicitários de estimação - nos surpreendem com programas ainda mais descarados. Obviamente, é fácil identificar a demagogia barata: publicitários de campanha não são famosos por sua criatividade, e nada do que eles usam é exatamente novo. Por isso, identificamos 8 sinais graves de que o que você está assistindo não passa da mais vazia e descarada demagogia. Tenho certeza de que vocês reconhecerão de cara estes artifícios:

8 - Músicas típicas nordestinas: todo demagogo que se preza tem um jingle tocado com sanfona, flauta e triângulo, cantado por alguém com sotaque nordestino de meia-tigela (”ele vai mudá o Brasil, vai, vai… ele é muito porreta, eta eta…“). Se não tem jinglezinho nordestino, o candidato está fora de moda: precisa urgentemente contratar um publicitário especialista em marketing eleitoral moderno.
7 - Sorrisos: já viram o Lula sorrir tanto quanto no programa de estréia da campanha eleitoral deste ano? Eu, nunca (pelo menos não sem uma boas doses antes)! Ele não descansou as covinhas por um segundo sequer! Um sorrisão daqueles só pode significar que o Brasil vai bem, muito bem. De qualquer forma, o sorriso amarelão é uma tática típica dos políticos de situação (os de oposição são carrancudos) e dos vendedores de carros usados, que querem passar ao espectador uma sensação de conforto, segurança. Claro que há um limite para a cara-de-pau: sorrir em propaganda do governo Lula é análogo, em forma e conteúdo, a contar piada em velório. É mais fácil acreditar em orgasmo de atriz pornô.
6 - O jornal de mentirinha: chega a ser ridículo, mas eles fazem do mesmo jeito. Todo ano mal começam as propagandas eleitorais e os partidos com mais tempo de exposição torram o saco dos eleirores com aquele escabroso telejornalzinho simulado, imparcial como voto de mãe. “Hoje, nosso jornal vai apresentar as propostas e a vida de João Honesto, candidato a Presidente. Ele nasceu pobre, na pequena cidade de Pirinapicuí, no Piauí”… ah, convenhamos! E o pior, nem trocar de canal dá. Pior mesmo só as novelinhas da Universal.
5 - Apresentadores negros: racismo? Que racismo? Para dar a idéia de que no seu governo, como num passe de mágica, as pessoas de diferentes raças terão instantaneamente oportunidades iguais, o front-end da campanha é o mais multi-racial possível. Isso inclui, óbvio, aquela obrigatória apresentadora negra - mulher e negra, duplamente discriminada. Aliás, esta tática já batida está sendo levada a um novo nível, trazendo índios sorridentes, como no programa inaugural do PT deste ano. Eventualmente, esta prática buscará usar de muleta eleitoral a imagem de todo tipo de minoria imaginável, como deficientes físicos, vítimas do Mal de Alzheimer e portadores de Síndrome de Down.
4 - O “Trabalhodrome”: o candidato (de mangas arregaçadas, e com o último botão da camisa aberto, para dar a impressão que estava em incessante e frenético trabalho) grava seu programa em uma sala agitada, com dezenas de pessoas em várias mesas. Ali, todos aparentam estar trabalhando alucinadamente (também com as mangas arregaçadas), analisando dados, examinando papéis, apresentando relatórios, abrindo blueprints, como se estivessem planejando um jeito de salvar a humanidade do iminente impacto de um meteoro daqui a duas semanas. Mas o assunto é muito mais sério: eles estão, aparentemente, é trabalhando incansavelmente em algum plano viável de governo para a nação. Ninguém, com exceção do candidato, olha para a câmera. Este é o trabalhodrome, o local mágico que o publicitário de estimação do candidato quer fazer você acreditar que existe de verdade e onde ninguém é um ator ou cabo eleitoral fazendo papel de grandão. Isso, claro, só funcionaria se você fosse um completo idiota sem filtro crítico algum contra a hipocrisia (Lula, por acaso, se elegeu utilizando esta tática publicitária). Agora, quem está usando imagens do trabalhodrome é Alckmin…
3 - Grávidas: grávidas representam o futuro, a esperança. Por isso, convém rechear toda propaganda eleitoral hipócrita que se preze com grávidas. Grávidas a granel. Todas de roupa branca e descalças, como em um comercial de ceral matinal integral, sorrindo e despreocupadas como se não houvesse amanhã e lânguidas como gatos no sol. Para tornar tudo mais cínico, garanta que existam grávidas negras, índias, orientais, loiras e morenas. Todas lindas e com menos de 40 anos, claro.
2 - Hino nacional em arranjo melodramático: estamos chegando lá! Nosso segundo maior indicativo de demagogia - ou melhor, de manipulação emocional grosseira, mesmo - é aquele arranjo arrastado, carregado e heróico do hino nacional, que vai reduzindo o tempo da melodia enquanto, em um crescendo vibrante de patriotismo, o candidato faz pose na frente da bandeira nacional tremulando em câmera lenta. Ideal para seduzir os grandes patriotas que não sabem a diferença entre Câmara e Senado, mas que choram quando toca o hino nacional no jogo do Brasil.
E agora, o maior indicativo de que estamos assinstindo a demagogia da grossa:
1 - Crianças: é sério: candidato que utilizasse crianças em campanha deveria perder imediatamente o registro da candidatura E os direitos políticos por 538 anos, prorrogáveis por igual prazo. Esta é uma prática tão antiga quanto a própria humanidade, e quase tão repulsiva quanto. Os candidatos, que antes se limitavam a beijar criancinhas, gradualmente foram elevando a tática a patamares cada vez mais perversos: coral de crianças cantando o hino, crianças colorindo um mapa do Brasil com as cores do ParTido, crianças sorrindo e balançando bandeirinhas na escola (todas de uniforme impecável), crianças, crianças. Enche o saco: as criancinhas são hoje utilizadas ad nauseum em campanhas políticas de praticamente todos os partidos. Uma tática especialmente ominosa é o teatrinho de crianças, que discutem com seus pais (e com seus amiguinhos) o porquê do candidato X ser melhor do que o Y, geralmente com longos textos decorados e recitados assimsempausaesemvírgula, inexpressivamente e de um fôlego só, como só os piores atores mirins sabem fazer. Talvez isso busque seduzir os próprios pequenos, que, embora jovens demais para votar, podem torrar o saco dos seus pais (que estão pouco se lixando para política, mesmo, e vão votar em qualquer porcaria) até que eles votem no candidato que as crianças da casa escolheram. Para o restante da humanidade, no entanto, criança em propaganda política só serve para irritar.
Claro, tudas estas táticas podem ser mescladas de diversas formas. Um combo particularmente imoral é utilizar grávidas(3) multi-raciais(5), todas sorridentes, descalças e vestidas de branco, em um campo arcadiano com o verde supersaturado, que são encobertas por um enxame de crianças sorridentes(1) que vêm correndo estendendo sobre o campo uma bandeira gigante, ao som do hino nacional tocado com acordes melodramáticos(2), em um crescendo emocional que culmina com a imagem do candidato, sorridente(7), translúcida sobre a bandeira nacional. Só relembrando, o Lula utilizou isto.
Espero, daqui a dez anos, não estar escrevendo o mesmo guia com os itens “incluir sexo explícito no programa”, “oferecer publicamente salvação da alma em troca de votos” e assemelhados.



Hehehehhe. Esqueceu do olhar quando o cara pergunta se vc realmente quer “mudar o que está indo bem”/”dar um novo rumo de esperança para o Brasil”.
Mas os Nambiquaras aqui engolem a enganação E até sentem um estranho prazer nisso.