Direito comparado


Nas Filipinas, a notícia é esta:

Juiz que consultava duendes é afastado nas Filipinas

Um juiz filipino que dizia tomar decisões com a ajuda de duendes foi definitivamente afastado da magistratura pela Suprema Corte do país, informou o jornal Philippine Daily Inquirer.

Terminou sem final feliz a conto do juiz e os três duendes”, brincou o jornal.

Florentino Floro, 53, havia sido afastado em março depois de revelar ter feito um pacto com três duendes – Armand, Luis e Angel – para ver o futuro.

Ele acrescentou que escrevia em transe e que havia sido visto por várias pessoas em dois lugares distintos ao mesmo tempo.

Matérias na imprensa filipina afirmaram que toda sexta-feira o juiz trocava a beca azul por negra, para “recarregar os poderes psíquicos”.

Mas os argumentos não comoveram a Suprema Corte, para quem tais poderes “não têm lugar” no Judiciário.

“Fenômenos psíquicos, mesmo assumindo que existam, não têm lugar na determinação do Judiciário de aplicar apenas a lei positivista e, na sua ausência, regras e princípios igualitários para resolver controvérsias”, diz a sentença.

Durante as audiências do processo, os médicos da Suprema Corte e do próprio juiz haviam afirmado que o réu sofria de problemas mentais.

Imortal

Ao saber da decisão, o juiz Floro declarou que o tribunal o havia tirado da obscuridade e projetado para “imortalidade”.

“Não apenas neste país ou em redes internacionais de notícia, mas, antes de tudo, na indelével memória da história mundial do Poder Judiciário.”

O caso foi discutido em mais de mil blogs e suscitou mais de 10 mil respostas em todo o mundo, inclusive de apoio de praticantes de magia e ocultismo, disse o juiz.

Na visão da Suprema Corte, a aliança de Floro com duendes “coloca em risco a imagem de imparcialidade judicial, e mina a confiança pública do Judiciário como guardião racional da lei, isto é, se não torná-lo objetivo do ridículo”.

Fonte: BBC

Enquanto isso, no maravilhoso país chamado Brasil…

Carta psicografada ajuda a inocentar ré por homicídio no RS

LÉO GERCHMANN
da Agência Folha, em Porto Alegre

Duas cartas psicografadas foram usadas como argumento de defesa no julgamento em que Iara Marques Barcelos, 63, foi inocentada, por 5 votos a 2, da acusação de mandante de homicídio. Os textos são atribuídos à vítima do crime, ocorrido em Viamão (região metropolitana de Porto Alegre).

O advogado Lúcio de Constantino leu os documentos no tribunal, na última sexta, para absolver a cliente da acusação de ordenar o assassinato do tabelião Ercy da Silva Cardoso.

Polêmica no meio jurídico, a carta psicografada já foi aceita em julgamentos e ajudaram a absolver réus por homicídio.

“O que mais me pesa no coração é ver a Iara acusada desse jeito, por mentes ardilosas como as dos meus algozes (…). Um abraço fraterno do Ercy”, leu o advogado, ouvido atentamente pelos sete jurados.

O tabelião, 71 anos na época, morreu com dois tiros na cabeça em casa, em julho de 2003. A acusação recaiu sobre Iara Barcelos porque o caseiro do tabelião, Leandro Rocha Almeida, 29, disse ter sido contratado por ela para dar um susto no patrão, que, segundo ele, mantinha um relacionamento afetivo com a ré. Em julho, Almeida foi condenado a 15 anos e seis meses de reclusão, apesar de ter voltado atrás em relação ao depoimento e negado a execução do crime e a encomenda.

Sessão espírita

Não consta das cartas, psicografadas pelo médium Jorge José Santa Maria, da Sociedade Beneficente Espírita Amor e Luz, a suposta real autoria do assassinato.

O marido da ré, Alcides Chaves Barcelos, era amigo da vítima. A ele foi endereçada uma das cartas. A outra foi para a própria ré. Foi o marido quem buscou ajuda na sessão espírita.

O advogado, que disse ter estudado a teoria espírita para a defesa (ele não professa a religião), define as cartas como “ponto de desequilíbrio do julgamento”, atribuindo a elas valor fundamental para a absolvição. A Folha não conseguiu contato com o médium.

Os jurados não fundamentam seus votos, o que dificulta uma avaliação sobre a influência dos textos na absolvição.

Os documentos foram aceitos porque foram apresentados em tempo legal e a acusação não pediu a impugnação deles.

Polêmica

A adoção de cartas psicografadas como provas em processos judiciais gera polêmica entre os criminalistas. A Folha ouviu dois dos mais importantes advogados especializados em direito penal no Rio Grande do Sul. Um é contra esse tipo de prova. O outro a aceita.

De acordo com Antônio Dionísio Lopes, “o processo crime é uma coisa séria, é regido por uma ciência, que é o direito penal. Quando se fala em prova judicializada, o resto é fantasia, mística, alquimia. Os critérios têm de ser rígidos para a busca da prova e da verdade real”.

“O Tribunal do Júri se presta a essas coisas fantásticas. O jurado pode julgar segundo sua convicção íntima, eles não têm obrigação de julgar de acordo com a prova. A carta só foi juntada aos autos porque era um tribunal popular. Isso é o mesmo que documento apócrifo.”

Para Nereu Lima, “qualquer prova lícita ou obtida por meios lícitos é válida. Só não é válida a ilícita ou obtida de forma ilícita, como a violação de sigilo telefônico. Quanto à idoneidade da prova, ela será sopesada segundo a valoração feita por quem for julgar. Ela não é analisada isoladamente, mas em um conjunto de informações. Os jurados decidem de acordo com sua consciência”.

Ê, brasileiro… sem vergonha de ser neolítico!


Douglas Oliveira Donin é advogado, cético, liberal, democrata, capitalista, utilitarista e sul-riograndense de Porto Alegre.
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Comentários dos Leitores

Belo site. Parabéns. Agradeço o link, que já retribuí.

Abração, Tambosi

Meu Deus do céu. Eu vivo em uma tribo, não num país.

É o que eu acho, Lefebvre.

Qual a diferença entre acreditar em espíritos e dançar ao redor de fogueiras com chocalhos e máscaras de palha?

Se fosse apenas a crença de uma parcela bárbara da população, seria até admissível. Mas quando o próprio aparelho estatal começa a falar em espíritos, deuses e videntes, é sinal de que alguma coisa está muito, muito errada…

“parcela bárbara da população”

Com ou sem “incite rage”?

Depende. Os evangélicos não precisam (já é habilidade passiva da classe).

verdade : )

Eu imagino se um advogado dissesse que Deus estaria falando com ele no exato momento em que ele está fazendo suas declarações finais, usando a Bíblia para provar de que em vários casos Deus já falou com profetas, então não há como disputar que o mesmo está acontecendo com ele!

O Donin sabe que eu acredito em várias coisas que ele duvida, mas concordo que neste caso foi longe demais. Não por ser uma “prática tribal”, mas por ser uma tresvaloração de valores gigantesca. De repente deixa de ser julgada a ré e passa a ser julgado o Judiciário: como os assassinados acham que o Judiciário está agindo com quem eles acham ser seu algoz?

Este sim, para mim, é o verdadeiro absurdo da notícia. O juri deveria ter se perguntado: “Está em nossa capacidade verificar a veracidade desta informação?” Eu não poderia!

Cara, isso é triste. Nem dá pra ver graça de um troço desses. Dá vergonha morar num país cujo Judiciário desce a esse nível.

O pior é que, mesmo q ré seja inocente, o fato de terem aceitado essa prova absurda faz qualquer pessoa séria contestar o resultado.

mais um link garimpado pra vc:
Armor of God kids pajamas: http://www.armorofgodpjs.com/

Em subsídio ao contexto, informamos que o perito em Grafoscopia, Dr. Carlos Augusto Perandrea, escreveu um Livro chamado - A Psicografia à Luz da Grafoscopia - : É um Trabalho Científico inédito no mundo publicado na Revista Científica Semina da Universidade Estadual de Londrina. O autor prova a comunicação psicográfica comparando a letra ( padrão ) do indivíduo antes da morte e depois em mensagens mediúnicas ( psicografia ) analisando em laudo Técnico e chegando à conclusão de autenticidade gráfica.

Este Professor da Universidade Estadual de Londrina – Paraná, Criminólogo, com Especialização em Criminologia ; Perito Judiciário em Documentoscopia ; Credenciado pelo Poder Judiciário de Londrina ; Professor Universitário, na Universidade Estadual de Londrina, desde 1972 ( Medicina Legal - Identificação Datiloscópica e Grafotécnica - Curso de Direito ) ; Cadeira de Deontologia nos cursos de Fisioterapia e Odontologia ; Cadeira de Medicina Legal - Ciências Policiais no Curso de Especialização em Criminologia ; Perito Judiciário em Documentoscopia, confirma a autoria gráfica de psicografias ( mensagem de “Espíritos” ) recebidas através do médium Chico Xavier quando comparadas com a grafia das pessoas enquanto ainda vivas ( o que se constituiria em uma prova da sobrevivência da consciência humana ao fenômeno da morte física ).

Carlos Perandrea possui 700 laudos proferidos em sua vida profissional sem uma única contestação. O trabalho onde ele comprova a autoria gráfica de pessoas já mortas através da grafia de Chico Xavier, e que ele desenvolveu em investigações por mais de dez (10) anos, foi publicado na Revista Científica da Universidade de Londrina, a Revista Semina, em 1990, e igualmente apresentada, em outra oportunidade, em um Congresso Nacional, diante de mais de 500 Profissionais e Peritos da área, sem uma única contestação (!!!)

O método grafoscópico empregado por esse Perito é totalmente aberto a investigações, sendo amplamente utilizado pela Justiça, em casos de âmbito geral ( não me refiro à psicografia ) de todo o mundo há muito tempo ( tanto para condenar um réu, como para absolver ). A metodologia utilizada por Perandrea é a padrão em Grafoscopia Judiciária, que é uma área que tem sólido respaldo Científico já há muitas décadas, sendo importante assinalar que é uma atuação objetivando validar provas que venham a incriminar alguém e contribuir na condenação em Processos Judiciários.

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Ensina Espínola Filho em seu Código de Processo Penal, vol. II/453 :

“Como resultado da inadmissibilidade de limitação dos meios de Provas, utilizáveis nos processos criminais, é-se levado à conclusão de que, para recorrer a qualquer expediente, reputado capaz de dar conhecimento da verdade, não é preciso seja um meio de prova previsto, ou autorizado pela Lei, basta não seja expressamente proibido, não se mostre incompatível com o sistema geral do Direito Positivo, não repugne à moralidade pública e aos sentimentos de humanidade e decoro, nem acarrete a perspectiva de dano ou abalo à saúde física ou mental dos envolvidos, que sejam chamados a intervir nas diligências”.

Charlatanismo existe em TODOS os meios, inclusive os religiosos. Não seria qualquer um que convenceria os meios Jurídicos. Sem dúvida que tal fato gera polêmica. Muitos advogados são contra, e isso é até bom pois senão muitos se aproveitariam para burlar a Justiça.

O advogado criminalista Roberto Podval concorda que a psicografia não pode ser utilizada como única prova objetiva no Direito. “Materialmente falando, isoladamente não é prova válida. Mas pode ter um caráter subjetivo e indicar ao juiz algum caminho.” E de acordo com o Juiz Federal aposentado Zalmino Zimmermann, são cada vez mais comuns casos de Juízes que aceitam cartas psicografadas como provas. “Claro que depende da qualidade e da autenticidade da prova”, explicou. “Os casos, porém, não estão catalogados para consulta em separado”, disse o Juiz.

Atenciosamente,

Lauro Denis

Em subsídio ao contexto, informo que o livro chamado “A Psicografia à Luz da Grafoscopia” é PSEUDOCIÊNCIA MÍSTICA DA GROSSA, e que seu autor, a despeito de ser um grande professor, é envolvido no espiritismo até o pescoço, sendo membro atuante nesta religião-pseudociência.

Este livro não faz nada senão apenas colocar os conhecimentos técnicos de seu autor a serviço de sua religião pessoal, e não da ciência. É motivo de piada não somente no meio jurídico, mas também no meio científico.

Em tempo: o fato de existir algo publicado defendendo alguma baboseira não é sinônimo de que esta baboseira seja verdade. Qualquer um pode publicar qualquer coisa para mascarar as crenças religiosas que gostaria que fossem verdadeiras como ciência.

Aliás, acabei de deixar uma discussão gigantesca na SBCR onde tentávamos explicar porque não há nenhuma evidência de que espíritos existam. Contra nós, um espirita estava tentando dizer que médicos, juristas, físicos, químicos, biólogos, todos estávamos errados, pois “já foi provado cientificamente” que existem os espíritos. A comunidade científica que é malvada, não aceitando as provas “incontestáveis”.

Agora, isso.

Literalmente, “quanto mais eu rezo, mais assombração aparece”.

Gostaria de dar os Parabéns ao Sr. Lauro Denis pelo seu interessantíssimo e bem fundamentado comentário, apoiado em documentação idónea e acessível a qualquer um que efectivamente a deseje consultar. É por conteúdos como o que nos apresenta que a blogosfera vale a pena. Ainda que lido por alguém completamente alheio à discussão, o seu comentário acrescenta dados construtivos e pertinentes, sérios.

E uma nota para o Sr. Douglas Donin. Obrigado por dar expressão à pluralidade democrática e liberdade de opinião em que nossos países assentam.
Quanto ao conteúdo da sua intervenção, lhe digo: descanse. Tendo razão, é uma mera questão de tempo até tal ficar óbvio para todo o mundo: o relógio está a contar. Todos sem excepção morreremos inevitavelmente. A terrível Verdade tornar-se-á auto-evidente…
Gostaria também de relembrar que se o Sr. for jurista, isso não lhe retira idoneidade para falar do papel do Direito na Sociedade, por exemplo.
Gostaria ainda de lhe pedir provas da não existência daquilo que o senhor infirma, afinal, o facto de haver algo publicado sutentando uma qualquer tese, não a torna verdade.
E quanto à atitude do seguidor da doutrina espírita que referiu, recorde-se que existem pessoas correctas e menos correctas em todos os meios. Até em Blogs, oradores humanistas racionais laicos podem esquecer-se de um princípio humanista racional laico básico: o respeito pelo outro.

Com os melhores cumprimentos,

António Santos.

“Gostaria ainda de lhe pedir provas da não existência daquilo que o senhor infirma, afinal, o facto de haver algo publicado sutentando uma qualquer tese, não a torna verdade.”

INVERSÃO DE ÔNUS DA PROVA
http://www.duvido.com/?p=4

Olá!
Só agora li este artigo e achei muito interessante. Já Havia lido outras matérias a respeito do assunto e não me sinto no diteito de dizer que é absurdo, pois como diria shakespeare ” há mais mistérios entre o céu e a Terra do julga nossa vã filosofia..”.
Existem muitas correntes a respeito do assunto e religião não é algo que se discuta, porém, acreditar que existe um Deus bom e justo e ver tanta miséria no mundo é algo paradoxal. Sendo assim, não acho que acreditar na reencarnação seja algo ridículo ou patético. Será mesmo que existe um Deus tão bondoso ao ponto de mandar um “filho” para viver eternamente no céu e ao mesmo tempo ser tão tirano ao ponto de mandar outro “filho” para queimar eternamente no fogo do inferno?
Acredito sim que seja possível a teoria das vidas sucessivas e que após a morte do corpo físico os espíritos continuem vivos e voltem a nascer, como uma segunda oportunidade, para resgatar seus erros. Isso não é sobrenatunal e sim inteligente.
Parabéns pelo site.
Abraços