Apelo à Ignorância


O Apelo à Ignorância, ou argumentum ad ignorantiam, é uma classe de argumentos deficientes que se baseiam na estrutura fundamental “não sabemos que isto é falso (ou verdadeiro), logo, isto é obrigatoriamente verdadeiro (ou falso)”.

Como quase todas as classes de sofismas, as diferenças são sutis e, em alguns pontos, nebulosas entre o apelo à ignorância e outras categorias. Os mais clássicos usos do apelo à ignorância derivam de um falso dilema (”ou você está plenamente certo ou eu estou plenamente certo”), e utiliza-se do mais básico truque retórico da inversão do ônus da prova (”se você não pode provar que minha alegação é falsa, logo, ela é certa”).

A identificação de apelos à ignorância é muito simples. Analisemos, por exemplo, as muito comuns afirmações abaixo:

“- Nenhum ateu consegue provar que Deus não existe, logo Ele existe!”

“- Claro que os OVNIS abduzem pessoas! Já viu alguém provar que os relatos de abduções são falsos?”

“- O aquecimento global não existe, pois os cientistas não estão plenamente de acordo sobre o assunto.”

Independente da existência de deuses, abduções alienígenas ou do aquecimento global, os locutores acima extraíram a fundamentação de sua opinião não de evidências, como seria de se esperar, mas justamente da falta de conhecimento sobre o assunto. Como é dito, “ausência de evidência não é evidência de ausência”.

Por se tratar de um erro de raciocínio básico, é relativamente fácil fazer a prova da invalidade do argumento. Um dos métodos (utilizável, aliás, em todos os casos de sofismas) é demonstrar que exatamente a mesma estrutura argumentativa pode ser utilizada para dizer o oposto (”O aquecimento global existe, pois os cientistas não estão em acordo sobre o assunto”, ou “Nenhum crente consegue provar que Deus existe, logo ele não existe.”), o que certamente seria recebido com protestos pelo ouvinte.

O importante, neste caso, é demonstrar para o locutor que, de um modo abstrato (e não unicamente no caso em questão), é uma incoerência atacar as posições de alguém com base na ignorância ou desconhecimento comum sobre algo, enquanto imuniza a sua própria opinião contra o uso deste mesmo critério.


Douglas Oliveira Donin é advogado, cético, liberal, democrata, capitalista, utilitarista e sul-riograndense de Porto Alegre.
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