Síndrome de Munchausen


Um dos transtornos mentais ligados à “incorporação” de supostos espíritos, demônios ou “encostos” é a síndrome de Munchausen. O nome faz alusão a Karl Friedrich Hieronymus von Munchausen (1720-1797), barão alemão que lutou a serviço da Rússia contra os turcos no período de 1763 a 1772. Após a guerra, o barão costumava contar histórias fantásticas e fantasiosas sobre a guerra e seus atos heróicos, o que lhe rendeu fama de mentiroso.

Descrita pela primeira vez pelo médico inglês Richard Asher, em 1951, a síndrome de Munchausen (SM) é um transtorno factício em que o paciente, mentindo, se apresenta aguda e dramaticamente doente, fingindo e imitando sinais e sintomas com o objetivo de enganar o corpo médico e obter tratamento sem realmente necessitar do mesmo. Em alguns casos, conseguem internações prolongadas e caras, sofrem procedimentos de diagnósticos invasivos, obtém longo tempo de terapia com as mais variadas classes de drogas e chegam mesmo a passar por cirurgias de grande porte.

“A síndrome de Munchausen, também denominada simulação, não é um distúrbio somatoforme, mas as suas características são algo similares aos dos distúrbios psiquiátricos sob a aparência de uma doença orgânica. A diferença fundamental é que os indivíduos com a síndrome de Munchausen simulam conscientemente os sintomas de uma doença. Eles inventam repetidamente doenças e freqüentemente vão de hospital em hospital em busca de tratamento. Contudo, a síndrome de Munchausen é mais complexa que a simples e desonesta invenção e simulação de sintomas. Ela está associada a problemas emocionais graves. Os indivíduos com esse distúrbio geralmente são bem inteligentes e cheios de recursos. Eles não somente sabem como simular doenças, mas também possuem um conhecimento sofisticado das práticas médicas. Eles são capazes de manipular seus cuidados para serem hospitalizados e submetidos a uma enorme quantidade de exames e tratamentos, incluindo cirurgias de grande porte. Suas fraudes são conscientes, mas a sua motivação e busca por atenção são em grande parte inconscientes.”

Fonte:
Manual Merck

O que leva o paciente a fabricar sintomas e doenças não está ainda claro. Hipóteses sugerem busca pela atenção, carência afetiva, ou compulsão por receber ajuda e piedade. A hospitalização ou participação em terapias ou cultos podem criar um ambiente psicológico agradável ao paciente, que fica dependente da atenção e cuidado que recebe.

Embora seja um fenômeno comum na medicina, esta síndrome parece, nas classes mais baixas principalmentes, migrar para os cultos religiosos, principalmente os neopentecostais.

Se no meio católico, por exemplo, as supostas “possessões” são raramente oficializadas pela Igreja, por procedimentos discretos e demorados de investigação, no meio pentecostal - principalmente com a espetacular difusão televisiva - os hipótéticos “exorcismos” ocorrem às dúzias por culto. Problemas pessoais são diagnosticados como resultado de possessões, maldições, “trabalhos” ou “encostos”, pastores executam os rituais de expulsão ou “libertação” em meio a um festivo e apoteótico clima de vitória, com direito a música, drama e ovação. Ao final, o “exorcizado” é recebido, vitorioso, liberto, saneado, pelo grupo.

Muitos dos que participam destes rituais voltam, outras vezes, com o mesmo problema. Algumas vezes, tornam-se conhecidos da comunidade, que se une em orações e demonstrações de apoio e carinho para “ajudar o irmão a se livrar definitivamente do espírito”. Desnecessário dizer, há uma similaridade muito grande com o que ocorreria no ambiente médico.

Paulo César Trevisol-Bittencourt, Professor de Neurologia da UFSC, e Victor Reis da Silva, Residente de Neurocirurgia, Universidade de Toronto, Canadá, relatam, em seu trabalho sobre Medicina Alternativa em Pacientes com Epilepsia em Santa Catarina, uma curiosa e extrema ocorrência da Síndrome de Munchausen em rituais espíritas:

“(…)Com roupas brancas e empunhando um bisturi, o médium finge executar uma craniotomia e gesticula como se estivesse de fato realizando a exérese de algo de dentro do cabeça do paciente. Numa atmosfera de coletivo frenesi, após alguns minutos termina a cirurgia e os cuidados de enfermagem passam à responsabilidade dos atendentes. São recomendados alguns dias de descanso, devido à seriedade da intervenção. Devemos enfatizar que todos os nossos pacientes submeteram-se a tal tipo de terapêutica. Além de um breve alívio psicológico, relatado uniformemente por todos aqueles submetidos a cirurgia, nenhum outro benefício foi citado. Entretanto, num simulacro de tragi-comédia dantesca, um paciente desenvolveu uma forma incomum da síndrome do Barão de Münchausen, passando até o momento por pelo menos dez cirurgias espirituais.

Ainda no aspecto religioso, foi deprimente observar que exorcismo foi um método alternativo indicado para epilepsia em muitos indivíduos de nossa amostra. Tradicionalmente, em tempos há muito idos, a igreja católica detinha o monopólio desta aberração terapêutica. Infelizmente, quando parecia que esta abordagem estava sendo esquecida, algumas seitas pentecostais da moda, com mal-disfarçados interesses financeiros, investiram fortemente em sua manutenção.”

Um dos fatores que podem explicar a grande ocorrência da síndrome de Munchausen no meio religioso é a crise no sistema de saúde - onde as classes mais baixas, ao contrário do que ocorreria na Igreja, não encontram na maioria das vezes atenção e cuidado imediato ou individualizado - e a espetacularização dos rituais de exorcismo, difundidos amplamente como grandes atrações, inclusive em horário nobre, pelos canais de televisão ligados ao pentecostalismo.

Segundo o Dr. Reynaldo Gomes de Oliveira, Professor Adjunto Doutor Departamento de Pediatria da Faculdade Medicina da UFMG e especialista no assunto, entre os indícios clássicos de tal síndrome encontram-se:

- Doença prolongada e inexplicável, tão extraordinária que mesmo os especialistas mais experientes garantam que “nunca viu nada parecido com isto antes”.

- Quadros repetidos, cíclicos ou contínuos que não se encaixa bem em nenhuma doença, com história, evolução, resultados de exames e repostas terapêuticas estranhas, incomuns ou inconsistentes e que começam a parecer insolúveis apesar dos esforços médicos.

- Sintomas que parecem, impróprios, inverossímeis, incongruentes e que só ocorrem na presença do paciente.

- Tratamento é sempre ineficaz ou não é tolerado ou deixa de funcionar após algum tempo.

- Quando determinado evento está sendo extensamente pesquisado por exames que dão negativos, novos sintomas aparecem e as queixas mudam.

Todos estes sintomas são bastante comuns em pessoas que comparecem aos cultos “desenganados pelos médicos”, alegando que “a medicina não sabia o que fazer”, reclamando de dores e problemas que aparecem e somem sem deixar vestígios ou sequelas.

Leitura adicional:
“Transtorno Factício”, (PsiqWeb)
Munchausen Brasil
Dr. Marc Feldman’s Munchausen Syndrome, Malingering, Factitious Disorder, & Munchausen by Proxy Page


Douglas Oliveira Donin é advogado, cético, liberal, democrata, capitalista, utilitarista e sul-riograndense de Porto Alegre.
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