Falso Dilema ou Bifurcação
O universo, felizmente, é bem mais complexo do que certas pessoas o fazem parecer. Ao invés de rótulos absolutos ou categorias simplórias onde os fatos da vida se encaixam perfeitamente e sem atrito, ou onde possam ser enquadrados em termos, em grande parte das vezes, maniqueístas e caricaturais, há uma variedade enorme de matizes que separam dois extremos de uma mesma questão - principalmente no que se relaciona à esfera ética ou aos problemas morais. De fato, em vez de um universo simplório, em tons contrastantes de preto e branco perfeitos, a realidade parece ser mais adequadamente descrita como um intrincado quadro de infinitas cores e matizes.
No entanto, boa parte das discussões ocorrem distantes deste reconhecimento. Certos debatedores insistem em colocar as mais complexas questões de modo simplório, quase sempre em termos de “absolutamente sim” ou “absolutamente não”, “absolutamente bom” ou “absolutamente mau”, “absolutamente verdadeiro” ou “absolutamente falso”, ignorando que existe uma enorme escala entre estes extremos distantes.
Ora, esta é a raiz e a essência de um vício de argumentação extremamente comum. Em certos momentos, ao discutir com um adversário, o mesmo nos oferece uma escolha entre duas opções, em que a negação de uma implica necessariamente na aceitação de outra. Quando isso ocorre, e quando realmente não existem outras opções às quais recorrer, devemos nos conformar com a derrota na defesa daquele argumento e concordar com o ponto do adversário. No entanto, quando nos é colocada a obrigação de escolher entre determinadas alternativas, quando na verdade há no mínimo uma outra, também viável e não oferecida, estamos frente a um Falso Dilema, ou Bifurcação - uma tática de charlatanismo argumentativo que, como tal, deve ser desmascarada.
Na maioria dos casos de Falso Dilema, a questão é habilmente colocada de um modo onde a negação de uma opção - quase sempre escolhida a dedo para parecer absurda ou levar a uma conclusão inaceitável - implica na aceitação incondicional da outra, que é exatamente o ponto defendido pelo autor. Em outros casos, mais raros, não são apenas duas as alternativas oferecidas, mas sim várias, que, mesmo assim, nem de longe elencam todas as escolhas possíveis.
Um exemplo que ilustra a estrutura principal da maioria dos Falsos Dilemas é:
“Ou eu estou plenamente correto e você completamente errado, ou o contrário”.
Este é o núcleo de grande parte das aparições desta falácia. Observamos neste exemplo, sem dificuldade, o problema: o debatedor não oferece uma terceira via, apesar de plausível, que é a possibilidade de cada um dos lados estar correto em alguns pontos e equivocado em outros.
Outro exemplo, em que o uso dos termos ridiculariza uma das opções:
“Ou um ser tão perfeito e complexo como um ser humano pode aparecer do nada, de repente e por acaso, em qualquer poça de água por aí, o que me parece bastante improvável, ou então nós fomos realmente criados por uma inteligência superior”.
(O autor da frase não prevê outras hipóteses existentes, como por exemplo, a vida surgir lentamente de compostos orgânicos. Tampouco admite futuras possíveis teorias capazes de explicar o problema.)
Mais um exemplo, desta vez ligado à política:
“Ou o Deputado Jefferson está certo em suas denúncias e todos os apontados por ele são culpados, ou ele está errado e todos são inocentes”.
(O autor não contempla a possibilidade de alguns deputados serem culpados e outros inocentes).
Ao utilizar discretamente um Falso Dilema, um argumentador hábil pode trazer a audiência para seu lado, contando com a tendência dos ouvintes de responder - e quase sempre sem muito cuidado ou critério na análise - a pergunta proposta antes que o debatedor questionado tenha tempo de desmascarar o artifício falacioso. Apesar disto, desmanchar argumentações com este tipo de inconsistência é bastante fácil: basta apresentar no mínimo uma alternativa além das propostas pelo adversário e demonstrar que, mesmo que esta terceira opção não seja obrigatoriamente verdadeira (a análise de sua validade, a rigor, não interessa neste momento), a sua mera existência derruba a origatoriedade de escolha entre as alternativas propostas anteriormente e força uma nova análise do problema. Argumentos que oferecem escolhas do tipo “todos ou nenhum” devem ser prontamente questionados com um “por que não alguns?”
O emprego desta simples técnica, além de expor a inconsistência lógica, ainda passa à audiência a impressão de que o proponente do Falso Dilema ou estava mal-intencionado ao limitar as escolhas, não possui profundidade analítica suficiente, não possui domínio do assunto, ou estava generalizando apressadamente os elementos em discussão.
O fato é, análises extremadas quase sempre estão erradas. Apesar disso, Falsos Dilemas exercem um apelo irresistível: reduzem elaboradas questões a caricaturas, complexos problemas em simplificações amigáveis, dramáticas e acessíveis - e geralmente estéreis, se o que desejamos colher são conclusões ponderadas acerca de algo.



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