Ataque Pessoal / Argumentum ad Hominem / Tu Quoque


Existem dezenas de tipos diferentes de estratagemas desonestos para tentar convencer um terceiro de seus pontos de vista. Alguns são muito elaborados, e somente aqueles com certa familiaridade com a lógica e a retórica conseguem detectá-los. Já outros são primários, óbvios e infantis, mas nem por isso menos utilizados.

Entre estas últimas, uma das táticas mais elementares, grosseiras e comuns de tentativas de convencimento a qualquer custo é o Ataque Pessoal, ou Argumentum ad Hominem – literalmente, “argumento dirigido contra o homem”. Trata-se de, quando confrontado com algum argumento sólido, fugir do assunto fazendo críticas aos envolvidos no argumento (geralmente, quem o apresentou) e não aos elementos do argumento em si. Como a verdade de uma afirmação não depende das virtudes da pessoa que a faz, um argumento deste tipo é inválido em uma discussão racional.

Esta falácia constitui uma boa parte da retórica política eleitoral, chegando a dominar o discurso apresentado aos eleitores na véspera do pleito. Isso ocorre pois, apesar de não possuir absolutamente nenhuma base lógica, é capaz de fazer um terceiro observador esquecer facilmente do embate de idéias e dirigir sua atenção a pontos irrelevantes da conduta do adversário. Pelo potencial emocional, tal tática possui enorme poder de convencimento imediato.

As características de alguém realmente merecem ser consideradas em alguns casos, como por exemplo, quando devemos contar com sua competência técnica (a afirmação de um médico sobre assuntos de saúde conta, com maior credibilidade do que a de um leigo) ou quando devemos confiar no seu testemunho (onde um amigo de um réu em um caso de assassinato tende a ter menos crédito, como testemunha, do que um terceiro que não o conhecia). Naturalmente, estas são características que adicionam ou retiram valor de uma afirmação. No entanto, no caso de um argumento lógico (inferência de uma conclusão a partir de premissas), a análise deverá ser feita, preferencialmente, apenas levando-se em consideração o argumento, e não a pessoa que o emitiu.

Existem quatro formas comuns de Argumenta ad Hominem: Ad Hominem Abusivo Direcionado ao Autor, Ad Hominem Abusivo Direcionado a Terceiro, Ad Hominem Circunstancial e Tu Quoque

Ad Hominem Abusivo Direcionado ao Autor

Neste caso específico de ataque pessoal, invoca-se uma crítica ao autor do argumento, muitas vezes desconexa com o assunto em questão, como meio de esquivar-se da tarefa de emitir resposta válida. Por exemplo:

“- Eu sou um bom jogador de futebol”.
“- Isso é mentira, pois, que eu saiba, você é um bêbado e um vagabundo.”
(O fato do primeiro beber ou ser vagabundo não significa que ele não jogue bem futebol).

Ou, ainda, atacando deslizes detectados na hora:

“- A Terra gira em torno do Sol, que, por sua vez, é apenas uma estrela da Via Láctia”.
“- Seu analfabeto! Que ridículo, escreveu”Via Láctia”, com “i” ! Isto é uma asneira, vocês não vêem que ele é um iletrado?”
(O fato do primeiro ter se equivocado formalmente, na grafia das palavras não significa que, materialmente, ele não esteja certo).

Ad Hominem Abusivo Direcionado a Terceiro

Nesta modalidade, critica-se a pessoa, caráter, conduta ou preferências de outros que compartilham da mesma visão do autor acerca de um ponto específico, principalmente se estas forem personalidades costumeiramente consideradas como reprováveis. Por exemplo:

“- O catolicismo é uma religião que prega o amor”.
“- Mas Hitler era católico, e era um criminoso…”.
(O fato de Hitler ser um criminoso não significa que todos os católicos o são).

“- A ciência é o caminho mais seguro para a cura das doenças”.
“- Mas Mengele também era cientista, e fazia experiências horríveis com judeus…”.
(O fato de Mengele fazer experiências com judeus não significa que a ciência não seja confiável).

Ad Hominem Circunstancial

Aqui, procura-se justificar ou refutar um argumento apoiando-se em uma característica específica da pessoa ligada a ele. Geralmente – mas não em todos os casos – evocam um hipotético egoísmo da parte contrária, que contaminaria suas posições. Exemplo:

“- Por isso, não há motivo para tratar desigualmente heterossexuais e homossexuais”.
“- Sua opinião não tem valor nenhum, pois você é gay! É o que te convém!”
(O fato do primeiro ser homossexual não invalida a lógica de sua argumentação).

Ou:

“Seu argumento contra o desarmamento é inválido, pois seu tio trabalha em uma fábrica de munições.”
(O fato de um parente trabalhar em uma fábrica de munições não invalida o argumento).

Tu Quoque

Muito similar ao Ad Hominem Circunstancial, o Tu Quoque (“você também”) é a mais elementar das quatro formas. Com certeza, muitos leitores relembrarão de discussões com colegas de escola primária travadas utilizando este tipo de falácia.

O tu quoque consiste em, ao invés de rebater um argumento que ataca uma posição, relativizá-la, desconsidera-la ou justificá-la apenas porque o apresentador do argumento encontra-se também naquela posição.

Por exemplo:

“- Você não lavou as mãos antes de comer, e isso é errado.”
“- Não é não, porque você também não lavou.”
(O fato do primeiro não ter lavado as mãos não torna a negligência do segundo menos grave).

Outro:

“- Você é ruim em matemática, pois tirou nota três.”
“- E tu? Que eu saiba, foi você que tirou nota zero na primeira prova.”
(O fato do primeiro ter tirado zero não muda o fato do segundo ter tirado nota três).

Mesmo a cultura popular, pródiga em cometer deslizes lógicos, reconhece esta falácia por meio do adágio “o erro do outro não desculpa o próprio”.


Douglas Oliveira Donin é advogado, cético, liberal, democrata, capitalista, utilitarista e sul-riograndense de Porto Alegre.
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Comentários dos Leitores

[...] introdução à lingüística tolkieniana disponível). O Helge não é nenhum santo também, mas o Tu Quoque é [...]

[...] introdução à lingüística tolkieniana disponível). O Helge não é nenhum santo também, mas o Tu Quoque é [...]

Olá Douglas,

Como eu uso minha página para mostrar a imoralidade e o perigo que representa o nosso atual governo, eu recebo alguns comentários e muita lorota na orelha de amigos usando principalmente do argumentum ad hominem para desqualificar os fatos. Por isso decidi falar um pouco sobre esta falácia e publiquei este seu artigo ao final. O endereço é http://studioz.multiply.com/reviews/item/182

Grande abraço, já virei um fã do site duvido.com, que eu não conhecia.

Rodnei