Apelo à Força ou à Ameaça – Argumentum ad Baculum


Em certas discussões, ao perceber que o argumento apresentado não possui valor lógico algum, um dos lados pode simplesmente tentar manipular emocionalmente o outro, para que este suplante a racionalidade pelo simples medo. Chamamos este expediente desonesto, bastante primário e racionalmente inválido de Argumentum ad Baculum, ou Apelo à Força, ou, ainda, Apelo à Ameaça, embora o mais correto devesse ser, talvez, Apelo ao Medo.

Infelizmente, é um tipo de invalidade argumentativa extremamente comum de ser observada, principalmente nos debates religiosos. Nestes casos, o defensor de uma religião, geralmente, simplesmente repassa aos seus ouvintes os argumentos que o amedrontaram quando este foi convertido àquela crença. Ou seja, em boa parte dos casos, tal argumentação é feita de forma não maliciosa, mas apenas porque o defensor da crença continua acovardado por tais ameaças.

Outras vezes, o beneficiado pela aceitação da idéia simplesmente necessita convencer que está certo embora tenha pleno conhecimento do fato de que seus argumentos não são sólidos, e apela intencionalmente para a produção do medo no ouvinte. Assim como Maquiavel afirmava que “a guerra é o argumento último dos príncipes”, geralmente, o apelo à força é o argumento último de um debatedor acuado ou sem razões consistentes.

Seja como for, ao descer ao ponto de fornecer um Argumento ad Baculum em uma discussão, geralmente o debatedor dá um golpe severo em sua própria credibilidade, demonstrando cabalmente que, ou suas posições são absolutamente indefensáveis, ou ele não conhece ou não possui capacidade de utilizar razões válidas capazes de sustentá-la.

Existem várias formas de se utilizar Argumenta ad Baculum para tentar dissuadir o adversário pelo medo. As mais comuns são:

Pior Cenário

Nesta modalidade de apelo à ameaça procura-se dissuadir alguém enfatizando os riscos da possível conseqüência da posição adotada que mais sejam prejudiciais a esta pessoa. Com isto, o argumentador pretende amedrontá-la e induzi-a a pensar que, embora ela provavelmente esteja certa, “é melhor não apostar”, pois eventos desagradáveis podem atingir esta pessoa caso ela esteja errada.

Tal conseqüência é, em grande parte dos casos, realmente possível de vir a acontecer. No entanto, é apenas um dos vários eventos que podem advir daquela situação.

Exemplos:

“Claro que João pode ser inocente. Mas e se ele for culpado? E se, ao libertarmos, ele invadir a SUA casa e estuprar a SUA filha?”

Este argumento é a base do recrutamento de certas religiões, principalmente quando a arregimentação de seus seguidores se dá logo na infância. Seus usos potestativos são extensos:

“Eu acredito na Bíblia, e você não. Se você estiver certo, eu não perco nada, simplesmente deixo de existir quando morrer. Mas e se EU estiver certo? Já parou para pensar que você será torturado por Deus por toda a eternidade, com a mais inimaginável das torturas, como conseqüência do seu ceticismo?”

Ou ainda, pode ser utilizada em campanhas eleitorais:

“Você deve votar a favor do desarmamento, pois, amanhã, VOCÊ pode ser vítima de uma arma adquirida legalmente”.

Observem que este argumento vazio pode ser facilmente utilizado pelos dois lados:

“Você deve votar contra o desarmamento, pois, amanhã, a SUA casa pode ser invadida, e VOCÊ estará indefeso”.

Bicho Papão e Força bruta

O Bicho Papão é a mais infantil e direta forma de utilização da ameaça para tentativa de convencimento. Ao contrário do Pior Cenário, aqui nem são apresentadas alternativas dentre as quais uma seria potencialmente mais segura para o ouvinte, mas sim, utiliza-se o simples terrorismo para afastá-lo do uso da razão e fazê-lo concordar com um argumento, invocando uma punição hipotética que, segundo o autor, certamente se abaterá sobre o interlocutor caso ele discorde. Exemplos:

“Se você não aceitar que a Bíblia é a Palavra de Deus, você será punido por Ele por toda a eternidade, com a mais inimaginável das torturas”.

“Não passe por baixo da escada, senão você terá treze anos de azar”.

“Não discuta comigo, pois as crianças que discordam dos pais são levadas pelo Velho do Saco”.

Já a Força Bruta é uma ameaça tão direta quanto o Bicho Papão, somente utiliza uma promessa imediata de castigo, por meio de força ou de uso de prerrogativas do próprio debatedor, para dissuasão do interlocutor:

“Se você não se calar agora e admitir que eu estou certo, te espancarei”.

“Dê o seu parecer contrário e você estará na rua”.

“Se você discordar de mim, te processarei e exigirei um milhão de dólares”.

Ameaça Velada

Aqui, ao contrário da forma de ameaça acima, temos um claro apelo à força por meio de uma ameaça colocada sutilmente nas entrelinhas da afirmação, ao invés de ser emitida diretamente. Esta forma de abuso é geralmente utilizada em discussões entre pessoas de diferentes níveis de poder. Exemplos:

“Obviamente, como você é da área técnica, quem tem que dizer se o meu projeto está certo ou não é você. Afinal, é você quem sabe de seu futuro profissional aqui na empresa…”

Uma pequena, mas incrivelmente comum, variação:

“Você pode concordar comigo ou não. Mas lembre-se que muitos desempregados aí fora, que fariam o mesmo que você por bem menos, na sua posição concordariam comigo sem pestanejar…”

Ou ainda em uma discussão familiar:

“Se você diz que precisa sair, tudo bem, afinal, você é livre para fazer o que quiser. No entanto, se eu fosse você e quisesse me encontrar aqui quando voltar, eu não sairia”.


Douglas Oliveira Donin é advogado, cético, liberal, democrata, capitalista, utilitarista e sul-riograndense de Porto Alegre.
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Comentários dos Leitores

Ótimo artigo !

Alias, se meu comentário não for aprovado, Ele irá castigá-lo por toda a eternidade ;)



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