Regressão Estatística / Tomar o Acidente por Alvo


Este pensamento é tão comum quanto irracional, embora não constitua, em alguns casos, uma falácia, por não estar ligado unicamente à mera lógica formal. Neste interessante e, muitas vezes, bastante complexo modelo defeituoso de raciocínio, toma-se um acidente, ou a realização de um evento qualquer, e institui-se que a produção daquele resultado específico, e não qualquer um dos outros possíveis, é motivo para perplexidade, ou para acreditar que uma mão invisível está manipulando a cadeia de eventos.

Em grande parte dos casos, ao pensar desta maneira, o utilizador deste raciocínio parte do pressuposto duvidoso de que há um resultado correto ou esperado, que é justamente o que foi produzido. Assim, a cadeia de acontecimentos deveria ser guiada, através de um mar de chances desfavoráveis, para a produção exata deste resultado. Obviamente, o tal resultado correto ou esperado só é identificado como tal depois que já ocorreu, no que não há mérito ou assombro algum.

Por exemplo: em uma roleta normal e balanceada, com 100 números distintos, a chance de que o número 42 seja o vencedor em uma jogada qualquer é de 1/100. No entanto, ao analisar o que foi sorteado após a jogada, um observador fica perplexo ao constatar que justamente aquele número sorteado, e não outro, foi o vencedor: esta perplexidade se dá apenas porque as chances daquele número específico eram poucas. Ele nega que, obrigatoriamente, qualquer outro resultado também teria 1/100 de chances de ocorrer, e que o mesmo raciocínio defeituoso que deu origem à perplexidade poderia ser aplicado a qualquer um dos resultados possíveis.

Aparentemente, este raciocínio torto, embora existente desde as origens da espécie humana, foi universal e amplamente difundido no século passado, no afã de negar a qualquer custo lógico a teoria da Evolução de Charles Darwin. Desde então, tem sido constantemente aprimorado, inclusive formando os alicerces místicos da crença do Design Inteligente:

“Dizem que a evolução ocorre por acidente. No entanto, qual a chance de que, por acidente, um microorganismo se torne um ser humano? É irrisória! E nós somos seres humanos! Portanto, é óbvio que alguma força inteligente está por trás de nossa criação!” (o argumentador não prevê que o mesmo raciocínio poderia ser utilizado por qualquer resultado aleatório possível da organização de matéria orgânica, desde que este resultado seja complexo o suficiente a ponto de formular um pensamento tão elaborado).

Também é comum ouvir o seguinte:

“Uma prova da existência de Deus é justamente a água. Já observou a perfeição da água? Ela é líquida em uma faixa de temperaturas muito reduzida, que é exatamente a da Terra. Suas propriedades químicas são únicas, vejam suas pontes de hidrogênio. Se algo fosse mudado na água, ela seria completamente diferente. Uma substância assim miraculosa só pode ser obra de Deus!” (realmente: se a água tivesse uma só propriedade química mudada, já não seria mais água, e sim, outra substância, e o invocador desta idéia estaria falando a mesma coisa agora a respeito de tal composto. O mesmo raciocínio pode ser aplicado para glorificar as propriedades únicas de qualquer composto químico).

Um mais incomum, mas com estrutura idêntica, é:

“Se as propriedades atômicas fossem um pouco diferentes, os elétrons se perderiam das órbitas dos átomos, ou cairiam em direção ao núcleo. Seria inviável existir qualquer matéria no Universo! Mas não, o que observamos é exatamente uma fina harmonia, perfeita, e isso só pode ser obra inteligente de Deus!” (realmente, se fossem diferentes as propriedades atômicas a matéria não existiria de forma como a conhecemos hoje. No entanto, isso não prova nada: poderia existir outra organização estável, completamente diferente da nossa, com a energia condensada de outro modo, e o invocador desta idéia estaria glorificando a harmonia de tal organização de energia. Ou então, se não desse origem a uma organização estável, possivelmente o montante inicial de energia do universo, aplicando-se o princípio da conservação de energia, entraria em um ciclo de colapsos até dar origem a uma organização sustentável, na qual o raciocínio acima ainda assim seria aplicado).

Mais exemplos deste erro em prática:

“Você viu? Caiu um raio na cabeça do João! Entre todas as pessoas, logo o João! Sabe quais as chances disso acontecer? Deve haver uma força inteligente que planejou isso, pois as chances disso ocorrer ao acaso são mínimas!” (O pensamento também pode ser aplicado, intacto, a qualquer outro ponto de queda do raio, seja este ponto a cabeça do José, do Joaquim, ou uma árvore específica no meio de uma floresta).

“Existem quatro bilhões de mulheres no mundo, e eu me apaixonei justamente pela Janaína. Sabe qual a chance disso acontecer? Uma em quatro bilhões! Não é muito para ser simples coincidência?” (o mesmo raciocínio poderia ser usado caso me apaixonasse por qualquer outra mulher no planeta).

“Já notou que, de todos os trilhões de planetas do Universo, nascemos justamente aqui? Sabe quais as chances disso acontecer? É óbvio que uma coisa de chances tão remotas não acontece ao acaso!” (obviamente, um suposto habitante de qualquer um dos outros trilhões de planetas poderia pensar a mesma coisa de si mesmo).


Douglas Oliveira Donin é advogado, cético, liberal, democrata, capitalista, utilitarista e sul-riograndense de Porto Alegre.
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Comentários dos Leitores

Mas 42 é o sentido da vida! Obviamente houve uma inteligência superior guiando essa roleta divina, para poder te mandar uma mensagem sutil ao ver tal resultado!
Hahahahaha Continue assim, cara, curti muito mesmo o seu blog, e fiz até um “marketingzinho” chinfrim.
Enquanto nós “Corintianos” não nos unirmos e nos fazermos ouvir, vamos passar a vida ouvindo o hino do Palmeiras em todas as esquinas…