Arte e Hambúrgueres
Uma das mais importantes obras para os que se dedicam ao estudo da filosofia estética – embora não pela obra em si, mas pela situação que a cerca – é “O Hambúrguer Gigante”, de Claes Oldenburg. Trata-se de um gigantesco hambúrguer feito em lona e espuma de borracha, medindo um pouco menos de um metro e meio de altura, e um pouco mais de dois metros de comprimento. Há até uma fatia de pepino no topo da (na falta de classificação melhor) escultura.
Esta obra, exemplo do hiperrealismo típico do pop art, foi adquirida em 1967 pela Galeria de arte de Ontário, pelo valor de dez mil dólares, e colocada em exposição.
O inusitado vem a seguir: ao observar o titânico e inusitado sanduíche, alguns jovens estudantes de arte resolveram deixar seu toque pessoal na exposição. E qual o acompanhamento ideal para um hambúrguer? Certamente, uma garrafa de ketchup, foi o que pensaram. Assim confeccionaram, em cartolina, uma grande garrafa do condimento, para acompanhar o gigantesco sanduíche. Inclusive, deram um jeito de ali expor sua criação, sem o consentimento da direção da galeria.
Obviamente, esta iniciativa enfureceu os responsáveis pela exposição: a garrafa de ketchup foi arrancada quase imediatamente das proximidades do sanduíche (não sem antes fazer a festa da imprensa e se tornar uma atração à parte), mas o hambúrguer permanece em exposição até hoje.
Não vamos nos prender à discussão se o trabalho dos estudantes era ou não arte: indiscutivelmente tratava-se de um feito artístico, não só o aparato material que puseram ao lado do hambúrguer, mas todo o ato. Também esqueçamos a questão do apuro técnico na confecção da garrafa, e se o mesmo era digno de exposição em uma galeria ou não. Estas duas questões tornam duvidosa mesmo o mérito do hambúrguer de estar lá. O que interessa é: por que o hambúrguer foi aclamado e a garrafa dos estudantes rejeitada? O que torna um mais válido do que o outro? O que, afinal, diferencia uma obra da outra?
Alguém poderia argumentar que um foi feito por um artista importante, outro, por meros estudantes. Ora, isso é admitir que o valor artístico – pois comercial não se discute - de uma obra pode ser definido por algo externo a ela mesma (no caso, o status do autor). Assim, o valor artístico de um objeto não está nele mesmo: a arte é incompleta sem o contexto. Seria razoável admitir isto?
O valor, igualmente, pode estar na inovação: o hambúrguer era original, a garrafa, uma adição. Mas e todo o genial ato dos estudantes? Seria ou não arte? Uma grande obra de arte, da qual a garrafa de cartolina era somente uma parte?
Este é um caso interessante. Com certeza, os estudantes fizeram muito mais para a filosofia do que simplesmente uma garrafa de cartolina: forneceram um excelente ponto de partida, aos recém chegados, para uma investigação sobre o significado e os critérios de valoração da arte.



