Irrefutabilidade


A dialética racional se dá em termos onde um lado apresenta argumentos ou teorias ao outro, para mútua consideração. Tais argumentos e teorias são tentativas de expor, por meio de sentenças, relações entre conceitos ou objetos. Assim, temos que uma teoria correta é aquela que estabelece relações verdadeiras entre os objetos que a integram, enquanto a incorreta prevê relações inexistentes ou imprecisas. Esta adequação, ou não, se dá por meios de testes: testes de coerência, testes lógicos, experimentação, apresentação de provas, confrontação com os fatos, entre outros.

Mas e quando um argumento não pode ser posto à prova? Quando ele não possui testabilidade? Quando a observação dos pressupostos do argumento, a relação entre os conceitos ou os próprios objetos é impossível? Quando a própria teoria admite como premissa ou verdade algo para o qual não há meio de teste?

Ora, um argumento ou teoria intestável é também imprestável para o discurso racional. Chamamos de isso de irrefutabilidade. Um argumento irrefutável é, automaticamente, inválido em uma discussão, pois não há nenhum fundamento sólido para justificarmos o eventual juízo de sua correção ou incorreção.

No entanto, alguns debatedores – intencional e maliciosamente, ou por simples deficiência lógica - costumam rechear seus discursos com argumentos resistentes à refutação, inclusive, utilizando-os como ponto de partida para teorias bastante extravagantes.

O vício da irrefutabilidade aparece, geralmente, sob duas principais encarnações: a irrefutabilidade por ignorância (ou por impossibilidade técnica) e por posicionamento privilegiado.

Irrefutabilidade por Ignorância (ou por Impossibilidade Técnica)

Neste tipo de irrefutabilidade, a impossibilidade de se testar a teoria é incorporada à mesma como próprio fundamento justificador. Na verdade, trata-se de uma descarada aplicação da Inversão do Ônus da Prova, escorada em um indisfarçado Apelo à Ignorância. Por suas características, é um dos pratos preferidos dos teóricos paranóicos conspiracionistas:

“Os Illuminati Bávaros controlam os governos mundiais por meio de uma conspiração política secreta, e o fato de que isto nunca foi provado reflete o quanto esta organização é onipresente e poderosa, pois consegue abafar a mídia mundial e eliminar aqueles que a descobrem.”

Outras, onde só mudam os termos:

“O fato de que a existência de Deus nunca foi provada somente reflete Seu poder, e o quanto nós, seres humanos, somos impotentes e ignorantes perto dEle, que, onipresente, passa despercebido por nós.”

Mais dois:
“A existência de uma alma imortal, de natureza sobrenatural, é comprovada pela impossibilidade de aparelhos mundanos a registrarem, o que, de fato, é um indício evidente de que ela não faz parte do mundo físico.”

“Óbvio que o governo esconde a existência de extraterrestres de nós, e prova disso é o esquema de repressão e omissão de informações que impede que o povo saiba qualquer coisa a respeito.”

Aqui os argumentadores apoderam-se do próprio vício da teoria – a impossibilidade de ser posta em teste – e exibem-o como troféu. É difícil argumentar racionalmente nestes termos: geralmente, quem utiliza este tipo de pensamento o faz sob diversas camadas de crenças infundadas ou sem suporte racional algum.

Uma tática que pode se mostrar útil é revelar que, pela simples aplicação dos argumentos, alguém defendendo uma idéia paralela – se possível, da qual o proponente discorde - pode ter o mesmo poder de convencimento.

Irrefutabilidade por Posicionamento Privilegiado

Aqui, os argumentos de um lado são, de antemão, admitidos como confiáveis por uma qualidade inerente ao próprio argumentador, enquanto os argumentos do adversário são desqualificados pela discordância com esta qualidade. Geralmente, partem de algum tipo de Ataque Pessoal.

Exemplos:

“Aqueles que duvidam que minha religião é a Verdade Absoluta, a Vontade de Deus, com certeza são satanistas, logo, suas opiniões não devem ser consideradas, pois são blasfemas.”

Outro exemplo:

“Os que atacam o pensamento de Marx são burgueses, criados em escolas burguesas, com um modo de vida burguês e interesses burgueses. Logo, seus argumentos são contaminados demais por seus interesses capitalistas para serem considerados seriamente.”

Aqui a tarefa de argumentar é, em muitos casos, estéril: o pensamento está tão fechado em si mesmo, que não aceita nenhuma influência externa. Todo o argumento, independente do mérito, é descartado como inválido antes mesmo de ser ouvido.


Douglas Oliveira Donin é advogado, cético, liberal, democrata, capitalista, utilitarista e sul-riograndense de Porto Alegre.
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